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Marcos Bidoia
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Domingo, 09 de março de 2014, 12h07

Não sou mulher

"Então somos diferentes, podemos ser diferentes, podemos ser muitas."

Posso usar sainhas curtas escandalosas e também usar saias contidas abaixo dos joelhos, ou calças justas sem me justificar.
Tenho este direito, o direito de ser várias.

Posso ser séria, dura, chefe de família e dona do lar, e posso do mesmo jeito ser despirocada, desbocada, debochada e irresponsável.

Fico quieta no meu canto, esperando que o príncipe me tire pra dançar, ou avanço com garras sobre meu alvo fazendo o príncipe às vezes recuar, eu posso isto sim. Posso ser uma ou a "outra".

No sexo, tenho orgasmos múltipluos, com gritos que te assustam ou te levam a loucura, covarde... ou louco. Ou sou contida, tenho orgasmos deliciosos sem sons ou quase chorosos. Ou sou frígida, e nem os tenho, o que que tem?
Eu tenho este direito.

Posso estar nos bares sorridente e com batons vermelhos lindos e bebendo, cantando e dançando. E posso estar em missas, em cultos, em hospitais e em retiros, eu sou várias, já disse e tenho direito de ser etérea às vezes.

As vezes gosto de homens lindos, as vezes gosto de homens feios, as vezes não gosto de homem nenhum, as vezes gosto só de rezar , as vezes gosto só de mulheres, as vezes não gosto de nada, sou infeliz por não gostar de nada – me deixe, sou assim. Tenho direito.

Não me critique quando me vê mulher assim, nem quando me vê mulher assada... assanhada. Nem quando me vê contida, nem quando atirada, nem quando tímida, nem quando calada, nem quando falante, nem quando arrogante. Nem quando me vê como nunca antes.

Aliás, não me critique nunca, nem me julgue nunca, tenho meus motivos, por séculos ainda terei pra todos os meus defeitos e qualidades.

Porque no início, de acordo com a ciência, você me puxava pelos cabelos como troféu para sua caverna e de acordo com a bíblia, fui feita da sua costela para te servir e mesmo assim toda a culpa o pecado foi a mim atribuida e pra sempre serei culpada.
E cobrada.

Talvez por isso a premissa de que mulher nem mesmo possa celebrar uma missa – é culpada.
E depois me colocaram virgem para ser mãe do homem Deus.

Que baita sacanagem, nem sacanagem pude fazer. Tive que ser santa, mas, concordo com esta passagem, se foi pra tal feito, se bem que não teve muito efeito... até hoje, mas Ele voltará.

E seguiu-se a hipocrisia... como me cobrar agora algum comportamento ideal? O que é ideal afinal?

O que lhe apraz, este é o ideal? Até a pouco tempo não deixavam que eu votasse, não deixavam que eu trabalhasse, não deixavam que eu sentasse à mesa de negociações, não deixavam que eu pagasse a conta, não deixavam que eu fosse a domadora na cama.

Como quer me cobrar atitudes?

Ainda estou apanhando de você em casebres e mansões, em delegacias e em puteiros, onde vai me pagar para me “amar” - leia-se humilhar.

Como quer que sejamos todas iguais?

Quando sou esposa e passo na sua frente de calcinha e me olha com desejo, obrigada. Mas saiba que muitas outras nem sequer são olhadas, e muitas outras ainda são olhadas com desdém.

Quando se preocupa com meu desejo e com meu orgasmo ou só com o meu dia, que bom amor – mas tantas que não tem este dengo e esta felicidade.

Então somos diferentes, podemos ser diferentes, podemos ser muitas.

Fomos, somos, seremos injustiçadas ainda por muitas décadas e talvez séculos.

Então pelo menos não cometa ainda a injustiça de não nos permitir sermos diferentes umas das outras.
Somos diferentes, porque ainda sentimos os pesos das indiferenças e dos tratamentos desiguais.

Marcos Bidoia é vendedor de parafusos e ferramentas em Primavera do Leste - Mato Grosso.... E filho de José Bidóia, o poeta das estradas.
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