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Marcos Bidoia
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Segunda, 09 de junho de 2014, 20h45

O nome da flor

Garoto de 22 anos chegou às escuras, com seu pai, tarde da noite, dormiu no pequeno hotel sem energia elétrica, vindo da cidade grande, desconfiado... dormiu! Acordou pela manhã e então saiu do pequeno hotel e olhou para aquela imensidão de poças, lama e poucas casas, respirou fundo e de cara pensou – É o meu lugar, nunca mais sairei daqui. Nunca mais. (coisa estranha, o normal seria correr dali, fugir,seria assustador pra maioria mas eu pensei justamente isto com a minha primeira visão de Primavera do Leste))...........................

O nome da flor é Primavera do Leste 
Ouvia falar nesta estação, nesta flor, era longe a minha estação. E quando desembarquei nesta estação, a estação era verão. Não era primavera, doce flor de Primavera. Haviam poucas flores plantadas, quantas flores nativas onde hoje andam seus carros.

Das flores dos pequizeiros ainda lembro bem. A cada rua aberta, a cada nova casa, um pouco da natureza se ia, e Caetano já dizia, naqueles belos dias “a força da grana que ergue e destrói coisas belas” - precisamos tirar suas plantas para plantar nossos filhos.
De um Rio de Janeiro, vim conhecer seu Rio das Mortes, que mostra tanta vida, e num mês de janeiro, você se mostrou pra mim, quase exibicionista – "veja como sou bela".

Bela, nova, adolescente, talvez criança, virgem, e eu cheio de vigor a possuí. Como muitos - como meninos, como homens adultos, como nonos italianos, alemães, afros, japoneses, Castellis, Silvas, Takashis, Souzas, Rivas, Cosentinos, Nunes, como todas as raças, com graça e violência a possuimos, minha doce e dura terra. Precisava ser domada, queria a doma.

Vejo fotos a toda hora, me remetem ao passado, suas ruas, suas casinhas, seus calhetões, suas poeiras, suas poças, suas crianças, suas fumaças das queimas do cerrado, suas cinzas, seus seres que não existem mais, minhas saudades eternas, meu choros, minhas lágrimas, minhas alegrias, minhas saudades e meu amigos.

Vejo nelas garotos ouvindo Dire Straits, Cindy Lauper, Madonna jovenzinha, Michel Jackson negro e criança, RPM, Paralamas usando óculos... todos sentados em murinhos de bares...

Vejo gente trabalhando, vindo e indo, correndo pra lutar, labutar, vejo a vida sem pressa e com muita pressa ao mesmo tempo.
Vejo crianças jogando bola na quadra da igreja a céu aberto e adultos assistindo sentados no muro à sombra dos eucaliptos, e vice-versa, ou tudo misturado.

Vejo festas em lugares onde depois se velariam mortos, vejo tanta coisa, tanta coisa.

Vejo grandes amores, grandes dissabores, grandes alegrias, grandes dores.

Vejo futuro onde foi passado, vejo passado onde é presente, vejo presentes para todos, você é um presente, cidade amada.
É possível falar de uma cidade como se estivesse falando de uma mulher – minha antiga Maringá já foi cantada assim.

Que mulher você seria então?

Pra mim, a que se deixa amar por qualquer um, uma Geni de Chico Buarque, a que não é vulgar, mas que é distribuidora de amor, ama sem distinção homens, mulheres, ensina crianças a amar.

Os que vem até você sem o dom do amante vão embora amando demais, sabendo o que é amar – você tem amor de sobra, e nunca sobra.

E mais, outra mulher você ainda é, por já ter nome de mulher mesmo – a doce Prima, Vera, sei lá...

Você é a mãe, a mulher mãe, que faz aniversário no mês de maio, mês delas, das mães. Sim, é emocionante falar de você em qualquer tempo, crianças fazem redações, pioneiros falam em rodas de baralho, jovens brincam em blogs e redes sociais.

Desculpe, falamos demais de você, amor. Reclamamos que se transformou muito, coisas da vida, sua vida que precisa passar por estágios para acolher seus filhos, as asas do anjo crescem. Você era menina adolescente, ainda é menina adolescente e ninguém percebe... 28 anos pra quem viverá milênios nem adolescência é, és embrião então, semente como as sementes que plantamos. É só plantarmos as certas.

Se te chamo de amor, eu posso, temos um caso, é coisa de cumplicidade, guardas histórias minhas, de minhas turmas de amigos que de tempos em tempos se renovam, de minha família, meus segredos – coisas que só um grande amor mesmo pode saber...

Amor de Primavera, amor de estação, coisas de flores, na Avenida Campo Grande tem as mais lindas, quem as terá plantado? Eu as vi crescer.

Para quem não leu meu texto na Revista Senso In Comum, foi este ai de cima.

Quero falar dos seus filhos mãe Primavera. São todos orgulhosos, os que nasceram nela, os que já nasceram nela e hoje já tem filhos nela também, você já tem netos. E os que fazem de ti mãe por adoção, mesmo que tenham te escolhido a 10 anos, 10 meses ou 10 dias. Nós te amamos muito.

Marcos Bidoia é vendedor de parafusos e ferramentas em Primavera do Leste - Mato Grosso.... E filho de José Bidóia, o poeta das estradas.
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