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Eduardo Mahon
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Domingo, 23 de dezembro de 2018, 20h52

Os homens da noite

Vinham homens. Eram homens, com absoluta certeza. Não digo pelo cheiro que o vento trazia de uniformes suados, babados de cansaço, vestidos por gente pesada, provavelmente homens que trabalham à noite.

Eram homens certamente porque, para além do estalar das tábuas de madeira da minha casa, sob o peso das botinas que pisavam alinhadas, havia um certo silêncio que somente homens fazem.

Que horas são?, perguntei-me ao ter certeza de que um grupo de homens estava se aproximando da casa.

As horas eram incertas, mas os homens vinham como a noite sufoca o dia, inexoravelmente. Pelos meus cálculos, eram vários homens, a vanguarda que pisava aflita e a retaguarda que observava tudo de longe. Eles iriam entrar pela porta como se a porta não existisse, romperiam a cozinha e a sala de estar, deixando as almofadas pelo caminho sujo de terra, abririam a porta do meu quarto e me levariam dali, sem mais nem menos. Haveria gritos que os homens não suportam.

A irritação pior que fazem os zumbidos de cigarras, que fazem os gatos quando copulam, que fazem os galos quando lutam, essa insuportável vazão de insultos que parte de uma mãe despossuída do filho, tudo isso acabaria com um estalo seco, um estampido alto e abafado, um bater de martelo decretando uma sentença.

O que resta é o silêncio, o vazio da perda íntima, a falta de explicação das guerras e, então, a entrega do espólio. O meu corpo desmontado pode ser carregado por homens, homens enormes e brutos, homens de mãos gigantescas, eles que não sabem exatamente o que estão fazendo porque não têm qualquer ideia de quem eu sou ou que faço. O que fiz?, o que foi exatamente que eu fiz?, quis saber deles e, em seguida, de mim mesmo.

Inventariei apressado os mínimos detalhes da minha vida, das peraltices de menino ao último e inconfessável pecado e, diante dos homens, eu poderia muito bem ter falado tudo como, de fato, falei. Gritei sem omitir nenhuma vírgula. Mas não adiantou nada. Tudo isso passou pela minha cabeça, antes que a porta abrisse, antes que a casa fosse tomada, antes que os uniformes secassem, antes que os homens sujassem suas botinas na areia de uma noite úmida.

Se acontecesse mesmo, para onde me levariam? O quanto iriam me extorquir para que eu inventasse uma boa razão para que não me matassem?

Comecei a sentir calor, o mesmo calor que eu sentiria se estivesse diante de um holofote potente cuja luz esbranquiçada veda saber quem é o responsável pelas perguntas, quem é o homem que quer saber com quem eu ando, o que eu faço, porque escrevo. E suei descontrolado, bronzeado por aquela luz hipotética, suei mais ainda sentindo o frio daquele galpão abandonado para onde me levaram, o frio que precede a morte sem razão, o enterro na madrugada numa cova funda próxima de algum rio.

Os homens espreitaram a porta, desfazendo-se em espectros que não precisam de licença para invadir a noite dos viventes e assombrá-los e, reunidos em volta da minha cama, olharam-me como se me julgassem culpado. Serei culpado? Culpado de quê?

Guardado no precipício da inconsciência, recobrei a lembrança. Eu sabia porque os homens estavam ali, porque eles iriam arrombar a minha porta, porque atravessaram a cozinha e a sala e deixaram um rastro imundo de terra cor de sangue coagulado. Eu sabia, inclusive, que viriam homens, vários de uma só vez, provavelmente de madrugada, esses mesmos homens truculentos de mão superlativa metidas nos uniformes suados.

Eu não deveria ter feito o que fiz, seja lá o que for, considerei. Mas o que fiz não era para tanto. A minha angústia não era nem a culpa que me pesou.

Na verdade, eu não tinha medo daqueles homens que marchavam maciçamente, dos homens que não sabiam e nunca viriam a saber. O que me dava medo era de não poder olhar para um relógio. Se ainda fosse noite, seria noite para sempre.

Eduardo Mahon é advogado em Mato Grosso, ex-presidente da Academia Mato-grossense de Letras e, obvio, escritor.
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