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Eduardo Mahon
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Quarta, 30 de janeiro de 2019, 18h01

Prefiro que sejam felizes

Fico imaginando meus filhos estagiando. Usarão gravata? Será que algum vai estudar Direito? Não tenho preferência. Prefiro que sejam felizes.

Quase não uso terno e gravata. Não acho mais necessário. O tempo passou, eu engordei, meus filhos nasceram. Depois que nascem os filhos, a gente começa a entender o que é importante na vida.

Os cabelos (poucos) estão ficando brancos e começo a eleger o que merece a minha atenção. Nada além do que me dá satisfação reclama cuidado. Guardo energia. Vou precisar mais tarde.

Gravata não é um item essencial numa cidade com o clima de Cuiabá. Coisa mais besta usar gravata. Por que não trabalhar de jeans e camisa? Mudarei de nome? Ou mudarão as referências? Os meus professores usavam. Qualquer um sonhava usar uma gravata de seda.

Os tempos são outros. Ademais, não é a gravata apenas. Esse é o item derradeiro. É preciso escolher o sapato que combina com o cinto que combina com o terno que combina com a camisa que consiga entrar no corpo e não fique muito justa.

Tinha um amigo que usava até suporte para gravata no colarinho. Eu sempre achei meio brega. Nunca usei nem prendedor. A gravata fala por si. Quinquilharias são dispensáveis.

Há, porém, situações incontornáveis onde a gravata ainda é um símbolo. Minha profissão exige passeio completo no Tribunal, por exemplo. Por aqui, a toga é dispensada, mas não o terno.

Hoje foi um desses dias especiais. Escolhi uma gravata que minha mãe gostava muito e vim trabalhar aqui no escritório. Azul marinho, com flores douradas. Fiz uma sustentação oral no TJMT que me rendeu o acolhimento de um habeas corpus e, como sempre, me senti mais novo. Ah vocês não sabem o prazer de fazer uma petição que seja vencedora! Não é o mesmo que extrair um dente. Nada parecido como fazer uma cirurgia. Numa petição, o que vence é a argumentação, o poder abstrato, todo aquele conjunto que está explícito e, o mais importante, está implícito numa petição. Os veteranos sabem.

E agora? O que faço com as gravatas? Cada uma mais bonita que a outra. Cabides cheios delas. Tenho pena de doar. Vender nem pensar. Posso enforcar uns 300 a 400 desafetos ou, talvez, enforcar a mim mesmo de raiva. Pra quê? Tem gente que não vale nem a gravata, nem o esforço. Não vale a pena, em todo o caso.

Gravata é como reputação: não se suja de forma alguma. Depois, ninguém limpa. Ela fica anos ali, no hiato entre julgamentos e bailes de formatura. Poderia fazer um grande quadro com a estampa de cada uma. Uma colcha talvez. Um vestido pra Clarisse. Melhor uso fariam meus filhos. Sim, porque tenho uma YSL que foi do meu pai. Década de 70. Bons tempos de Rio de Janeiro: 706, Hipopótamus, Beco das Garrafas etc. Ficava bem nele e, depois de uns 30 anos, ficou bem em mim também. Aliás, era a única gravata que eu tinha quando era jovem. Hoje, fica na metade da barriga. Não dá. Nem com o paletó fechado. Mas ela está lá, guardada como prova de um novato.

Fico imaginando meus filhos estagiando. Usarão gravata? Será que algum vai estudar Direito? Não tenho preferência. Prefiro que sejam felizes. Com ou sem gravatas, que sejam felizes. Apenas isso e tudo isso! Hoje foi um dia em que senti saudades de mim. Mas, olhando bem, acho que não é para tanto. Prefiro-me assim. 

Eduardo Mahon é advogado em Mato Grosso, ex-presidente da Academia Mato-grossense de Letras e, obvio, escritor.
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