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Luiz Evaristo Ricci Volpato
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Sábado, 05 de maio de 2018, 11h44

Saúde e fake news

Fake news. Esta expressão da língua inglesa se refere às notícias falsas que são divulgadas como se fossem verdadeiras. No entanto não se trata de mero engano ou mesmo uma paródia; as fake news são notícias falsas divulgadas como se fossem verdadeiras para deliberadamente enganar ou ainda auferir um retorno, seja ele financeiro ou político, ao seu autor ou outrem.

Mas isso é novo? Usar de mentiras para o benefício próprio não é o artifício número um de malandros e estelionatários? Incontáveis são as histórias de pessoas que caíram no "conto do vigário" ou que entraram em negócios imperdíveis e se deram mal. No entanto, nos dias atuais o impacto das notícias falsas ganhou dimensões antes inimagináveis, assim como foi ampliada a possibilidade de ganho com elas.

Em uma sociedade em que as pessoas estão diuturnamente conectadas; em que a informação está disponível em apenas um deslizar de dedo na tela do smartphone, e onde cada indivíduo passou de simples espectador e consumidor para também um produtor de informação – vide a quantidade de fotos e vídeos postados a cada instante na internet; é fundamental saber discernir a boa informação da notícia falsa.

Recentemente a revista Science, seguramente um dos periódicos científicos mais respeitados no mundo, publicou os resultados de pesquisa conduzida por uma equipe de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (Massachusetts Institute of Technology - MIT) sobre as fake news. O simples fato de pesquisadores do MIT e da revista Science estarem publicando sobre esse tema já demonstra a sua importância. Mas o artigo vai além, segundo a pesquisa, informações irreais têm 70% mais chances de viralizar na internet e têm maior alcance que as notícias verdadeiras. Para se ter uma dimensão desse potencial, a notícia falsa mais repercutida do mundo em 2017 teve mais de 1,14 milhão de interações.

O potencial que notícias inverídicas tem de causar problemas, nas situações mais diversas, tem provocado reações. Veículos de imprensa do mundo todo, inclusive do Brasil, vem lançando campanhas de orientação à população para prevenir a adoção de comportamentos inadequados embasados em falsas notícias.

A preocupação com o impacto que as fake news podem causar na saúde das crianças fez com que a sociedade Brasileira de Pediatria lançasse no final de abril deste ano a campanha #maisqueumpalpite. O objetivo da campanha é proteger as famílias brasileiras com informações seguras sobre saúde infantil, incluindo vários aspectos da infância, como alimentação, lazer, sono, dia a dia, amamentação e a prevenção de doenças por meio das vacinas.

A Odontologia ao longo do tempo tem sido alvo de muitos mitos e crendices populares e hoje também sofre o impacto das fake news. Quem nunca ouviu falar que "os dentes enfraquecem durante a gravidez"; que "a mulher não pode fazer tratamento odontológico enquanto estiver gestante"; que "antibióticos causam cárie nos dentes"; que "quando os dentes do nenê estão nascendo ele pode ter febre e até mesmo diarreia" ou que "quanto mais tempo demorar para o dente nascer, mais fortes eles serão"... São informações que, passadas de geração para geração, acabam por desinformar a população e, mais que isso, fazem com que as pessoas adotem condutas inadequadas crendo que estão fazendo o correto.

Ora, se os dentes da gestante enfraquecem durante o período gestacional e se ela não pode ser submetida a um tratamento odontológico nesse período, não há o que se possa fazer, não é mesmo? Não! Além das informações estarem incorretas, sabe-se já há algum tempo que é importantíssimo que a gestante tenha sua saúde bucal acompanhada por um profissional, pois isso impactará positivamente não apenas em sua própria saúde bucal e geral, como também na de seu futuro bebê bem como reduzirá as chances de um parto prematuro ou do nascimento de um bebê de baixo peso.

Da mesma forma, não há relação entre o princípio ativo de qualquer antibiótico e a ocorrência de cárie dentária. O que pode ser relacionado ao desenvolvimento da cárie dentária é a presença de açúcar na formulação da maioria dos medicamentos que são oferecidos às crianças na forma de xaropes e soluções. Ainda assim, a prevenção do desenvolvimento das lesões cariosas se daria da forma habitual: como uma boa higiene bucal com escova, dentifrício com boa concentração de flúor e fio dental.

Quanto à erupção dos dentes decíduos ou dentes de leite, como são popularmente conhecidos, deve-se acompanhar com atenção sua erupção e suspeitar de sintomas que a criança possa vir a apresentar nessa fase da vida. É muito comum as crianças sofrerem de doenças infecciosas e parasitárias nos primeiros anos de vida – época em que estão nascendo os primeiros dentes. Assim, frequentemente infecções de garganta, ouvido, entre outras não recebem o tratamento adequado, pois muitas vezes os responsáveis pela criança acreditavam que os sinais clínicos que ela apresentava eram devido à erupção dos dentes. A demora na erupção dos dentes também deve ser investigada – alterações locais ou sistêmicas podem estar associadas!

Da mesma forma, rotineiramente são apresentados na mídia, e com mais frequência ainda nas redes sociais, tratamentos milagrosos e equipamentos fantásticos que prometem resolver todos os problemas de saúde (saúde bucal inclusive) com o mínimo desconforto. Não acredite em tudo o que está na internet sem antes checar a origem da publicação e, principalmente, consultar o profissional que acompanha a sua saúde. Você pode estar sendo mais uma vítima das fake news.

Luiz Evaristo Ricci Volpato é cirurgião-dentista em Cuiabá e presidente do Conselho Regional de Odontologia de Mato Grosso (CRO-MT)
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