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Antonio P. Pacheco
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Sexta, 16 de fevereiro de 2018, 10h44

Abuso de poder e manipulação no jornalismo

Os limites éticos das relações e condutas entre políticos e jornalistas é mais fino que um fio de cabelo. Mas,ainda mais frágil e fugidio é o limite entre o cinismo e a integridade em um político. O polêmico episódio em que o governador de Mato Grosso José Pedro Gonçalves Taques (PSDB), flagrado ao mandar que o seu secretário de imprensa peça à um jornalista, durante uma entrevista coletiva, que lhe pergunte se ele conhece alguma obra de seu antecessor em suas andanças pelo interior do estado para que ele, a partir da pergunta, pudesse fazer um autoelogio e posar de estadista e competente gestor, deixou isso muito claro.

 

Para além de um vergonhoso flagrante de manipulação da mídia local e abuso de poder por parte do senhor governador – infelizmente com respingos na moral e prestígio do jornalista escolhido para servir de "escada" discursiva para o governante -, o fato expôs,ao grande público uma faceta sombria dos bastidores do poder político e econômico onde se trava uma "guerra fria" subterrânea, silenciosa e muitas vezes selvagem, entre repórteres e detentores de cargos públicos por mandato ou indicações, empresários e outras eminências de destaque social. E neste campo de batalha, a parte mais frágil, a que menos tem meios de defesa pessoal é o jornalista.

 

A propósito do lamentável episódio, vale lembrar a hierarquia da notícia estabelecida pelo linguista e filósofo Noam Chomski para demonstrar que os repórteres, na verdade, são usados a maior parte do tempo, como ferramentas de manipulação da opinião pública.

 

No livro A Manipulação do Público, escrito por Chomski em coautoria com Edward S. Herman, a informação, antes de chegar ao público, passa por cinco "filtros": a da prioridade dos grupos que estão no topo da cadeia de poderes; o econômico, determinado pelos financiadores dos veículos de comunicação; o da fonte, aquela que repassa ao repórter a informação quando a divulgação desta lhe interessa; o da pressão exercida pelos grupos de poder em constante tensão entre si; e por fim, o filtro da normatização do exercício da profissão de jornalista. Eu acrescento, baseado em minha experiência pessoal, observações e estudos ao longo dos 36 de jornalismo, um sexto item aos filtros a que o jornalista está sujeito: o das relações individuais do profissional jornalista com suas fontes, com o newsmaking e com os mass medias.

 

A hierarquia da notícia de Chomski não é a única, há outros pensadores que também identificam modelos variados de como o jornalista tem pouca ou nenhuma autonomia no exercício da profissão, como é o caso de Maxwell McCombs e Donald Shaw que desenvolveram os conceitos de agenda-setting, e Antonio Hohlfeldt, Luiz C. Martino e Vera Veiga França em sua obra "A hipótese de newsmaking (...)", por exemplo. Todos, no entanto, nos ajudam a entender com clareza porque o colega jornalista aceitou fazer a pergunta encomendada e porque o governador Pedro Taques e seu secretário de comunicação fizeram como fizeram tudo acontecer.

 

O flagrante do governador Pedro Taques em pleno ato manipulatório e abusivo contra um jornalista nos obriga a uma reflexão profunda e urgente sobre o modo como detentores de cargos públicos lidam com a imprensa, e não apenas no Brasil, e como os donos de veículos de comunicação oferecem na bacia das almas os seus jornalistas como meros estafetas aos anunciantes – notadamente àqueles que detém as verbas publicitárias públicas.

 

É preciso insurgir contra comportamentos antiéticos e abusivos como o do governador e protestar, inclusive com boicotes, contra os veículos de comunicação que desprezam o direito da sociedade a receber informações fidedignas e o mais isentas possíveis sobre os atos e comportamentos dos agentes políticos, gestores públicos e econômicos.

 

Nas redes sociais, o jornalista, claramente vítima do abuso de poder, tornou-se alvo de críticas, deboche e questionamentos sobre sua capacidade profissional, comportamento ético e até mesmo ofensas pessoais e chacotas, numa ampliação absurda do vilipêndio moral que só é possível nesta era das relações líquidas e virtuais, mas cujos estragos são bem concretos e reais.

 

O jovem repórter acabou ficando praticamente sozinho com o ônus de um ato que não premeditou, uma ação que não desejou praticar, um comportamento que não lhe é pessoal e nem próprio e sobre o qual não teve nenhuma responsabilidade, pois praticado por indução evidente sob condições previamente pensadas e articulada por terceiros.

 

No caso em tela, o repórter reagiu de acordo com o previsto por quem controla, de fato, o sistema comunicacional: quem paga a manutenção dos meios de comunicação e não tem escrúpulo algum de fazer uso de recursos públicos para benefício pessoal e ou do grupo de poder ao qual pertence.

 

Aos que afirmam que "é normal" que um assessor de imprensa coloque na boca de repórteres perguntas que interessam ao seu assessorado, e que repórteres aceitem passivamente serem conduzidos como meros repetidores de frases prontas eu digo: não, isso não é normal e nem ético. É manipulação óbvia e descarada. É servilismo antiprofissional e totalmente imoral. Academicamente, isso vai muito além do mero agendamento.

 

Tais situações são consequências da crescente precarização e mercantilização da profissão do jornalista. A glamourização da profissão com o advento das grandes redes de comunicação, que alça determinados profissionais à condição de estrelas do showbiz ao transformar programas noticiosos em talk shows e plataformas de merchandising, aliado à paulatina desmobilização dos jornalistas como integrantes de uma classe de trabalhadores, tem como um de seus efeito mais deletérios a plena submissão dos mesmos aos interesses econômicos dos seus empregadores e um alheamento dos padrões éticos e do compromisso social basilar da profissão que é a busca incessante pelas verdades inerentes aos fatos reportados, da transparência e fidelidade das informações repassadas à sociedade e a defesa intransigente das liberdades individuais e da Justiça equânime.

Aos jovens jornalistas um alerta: cuidado para não desprezarem como algo supérfluo e sem razão o exercício cotidiano da liberdade de expressão e o compromisso social da sua profissão. Voltem urgente aos livros de teoria da comunicação para entenderem qual o papel que exercem na cadeia da informação e aprenderem a se safar das armadilhas do sistema. Não abram mão jamais, por preço algum, de sua autonomia e dignidade profissional. E recuperem o mais rápido possível o senso crítico sobre o fazer jornalismo e a consciência de classe trabalhadora. Sozinhos, isolados, são presa fácil para as feras manipuladoras. São mera bucha de canhão nos campos de guerra subterrâneos do poder político-econômico.

 

Lembremo-nos a cada manhã ao sair de casa para uma redação: somos Jornalistas, não estrelas do showbiz. Somos trabalhadores assalariados, empregados, mas não somos escravos descerebrados. Somos profissionais da comunicação social e não "amigos" de quem nos emprega e explora nosso know-how, nosso suor e a mais valia que produzimos. Lembremo-nos que as fontes, sejam estas quais forem, do poder público e ou privado, tem seus próprios interesses ao repassarem ou reterem uma informação e precisam ser tratadas sempre com desconfiança e prudência. Não sejamos bonecos de ventríloquos, pois o que somos e sempre seremos é Jornalistas, dignos e independentes.

 

Antonio P. Pacheco é jornalista e escritor
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