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Kleber Lima
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Segunda, 03 de junho de 2013, 11h52

Aos meus amigos

Nos últimos dois anos já contei perdas muito dolorosas. Meu sogro Toninho, Minha tia Laíde e meus amigos Evilásio Alves, Franco Querendo, Ivo Borges, Nico Baracat. Agora, presentemente, perco o amigo e camarada Marco Túlio de Araújo ...

Até bem pouco tempo eu dizia que estava feliz em envelhecer pela sabedoria e experiência acumuladas, pela descoberta da ponderação, pela realização de alguns sonhos, etc... Tudo isso, claro, ainda faz parte do meu processo de amadurecimento como conquistas.

Porém, perder amigos e entes queridos é provavelmente a pior parte em envelhecer. Os últimos anos têm sido cruéis nesse aspecto. É doído contar perdas de pessoas que gostamos. Dói em si, e dói também imaginar que a nossa hora está chegando – o que fará a dor mudar de corações, não desaparecer.

Nos últimos dois anos já contei perdas muito dolorosas. Meu sogro Toninho, Minha tia Laíde e meus amigos Evilásio Alves, Franco Querendo, Ivo Borges, Nico Baracat. Agora, presentemente, perco o amigo e camarada Marco Túlio de Araújo.

Todos os citados tiveram importância relevante na minha vida. O “Marquim”, como o tratávamos quando nos conhecemos – era o jeito com o qual seu irmão Célio, meu amigo dileto também, o chamava -, porém, era com quem tive uma relação mais duradoura.

Nós nos conhecemos assim que chegamos a Cuiabá, na década de 1980. Eu cheguei no fim de 1988 e ele, creio, no início daquele mesmo ano.
Éramos militantes do PCdoB. Ele, dirigente, e eu ativista do movimento estudantil. Em comum também tínhamos o fato de sermos goianos de cidades próximas: ele, de São Luiz dos Montes Belos, e eu de Iporá.

Eram tantas as afinidades que em pouco tempo fomos morar juntos. Dividíamos um pequeno quarto de pensão no bairro Lixeira (os chamados ‘Pensionatos’) que não chegava a nove metros quadrados, sem banheiro, sem móveis, sem conforto. O que faltava em infraestrutura e dinheiro, todavia, sobrava em otimismo, perseverança e camaradagem: dividíamos desde o cigarro até o passe de ônibus que vendíamos para comprar comida.

Um tempo depois nos mudamos para uma casa maior, no CPA, e já tínhamos alguns móveis básicos.

Nos separamos quando ele ingressou na UFMT para cursar História e conseguiu uma vaga na Casa dos Estudantes, já no início dos anos 90. Eu levei dois anos para ingressar no curso de jornalismo, também na UFMT, mas ele já estava de saída para a Unic, onde cursou Direito.

A partir desta altura a vida foi se tornando mais generosa conosco. Nos formamos, exercemos nossas profissões, constituímos família, já não passávamos mais privações e continuamos nossas jornadas.

Nunca mais perdemos contato, e nossas famílias se conheceram. Juntos constituímos um enorme grupo de amigos em comum, e esse círculo nos manteve unidos.

Nesse fim de semana, contudo, ele saiu do círculo. Um infarto fulminante encerrou seu convívio conosco. Fui saber quase 24 horas depois do falecimento, mas ainda a tempo de ir me despedir do seu corpo.

Minha relação com Marco Túlio, como toda relação entre amigos, não foi só de flores. Enfrentamos problemas, brigamos, nos reconciliamos, mas nunca deixamos de sentir afeto e fraternidade de irmãos. Chegamos aqui juntos, sofremos juntos, lutamos juntos, vencemos juntos! Logo, parte da minha própria história morre com ele.

Esse é um problema sério com o qual não sei lidar muito bem. Se um pedaço da gente morre junto com os amigos e entes queridos que se vão, não seria exagero imaginar que se eles continuarem morrendo, daqui a pouco nós próprios desapareceremos. Se não física e biologicamente, certamente na memória social – já que não haverá testemunhas vivas da nossa caminhada.

Enquanto isso não acontece, aproveito a tristeza que toma conta de mim nesse momento pela perda do Marco Túlio para dizer a todos os meus outros amigos, ainda vivos, que os amo como eles são, com suas virtudes e vícios, e que embora não nos vejamos mais como em determinadas épocas de nossas vidas, vocês fazem parte da minha história, assim como eu das suas.

Quero que saibam disso enquanto estamos vivos e não apenas pelo relato de algum parente quando faltar um de nós. E peço que não deixem de gostar de mim por algum episódio isolado. Perdoem-me, por eventuais deslizes, mas, afinal, a vida é feita de vários episódios. No geral, se nosso saldo é positivo, devemos conservar a relação.

Sou muito grato pelas amizades que fiz na vida até aqui. Não são tantas, mas todas sinceras e intensas, do tipo em que se pode contar um com o outro para o que der e vier. Era assim com o Marco Túlio. À sua esposa, Angela, e aos filhos Gabriela, Marco Antonio e Caio Túlio, bem como ao irmão Célio e demais familiares, desejo que tenham como um membro da família, afinal, vocês me herdaram como amigo do Marco Túlio, e eu a vocês.

(*) Kleber Lima é jornalista pós-graduado, pesquisador e consultor de comunicação e marketing político-eleitoral, exercendo atualmente a função de Secretário de Estado de Cultura do Governo de Mato Grosso. E-mail: kleberlima@terra.com.br
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