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Emanuel Filartiga
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Terça, 18 de dezembro de 2018, 17h25

Fogo Bobo

Eduardo Galeano conta que um homem da aldeia de Negua, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

— O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Ah! Leitor amigo, nós às vezes somos os fogos bobos! Que seguem sempre os outros, que mantêm sempre a mesma forma de fazer, mesmo não tendo composições/alegrias; as mesmas ideias, os mesmos gestos… e instrumentos obsoletos. Escondidos no verbalismo, vazio do pensamento; no formalismo, mentira da incompetência; no beletrismo, cinismo da descrença. Nas palavras ocas e nas ações de “mentirinha”… Muitas vezes, o que é muito triste, afastamos a ação do conhecimento. Como foi alertado por Rudolf Rocker, em comemoração ao terceiro centenário de Dom Quixote: “A ação foi relegada ao esquecimento pelo conhecimento: aprendemos, graças a Deus, a diferenciar os gigantes dos moinhos de vento, mas se tu não ressuscitas nós apodreceremos no conhecimento: saberemos tudo mas não saberemos nada… Nossos cérebros se tornarão cada vez mais perfeitos; contudo a força dos músculos se irá extinguindo, nossos braços se tornarão impotentes” (sic).

Nós, quando fogos bobos, somos parciais, intransigentes, facciosos, medíocres; não somos capazes de romper com nossos próprios contornos e dirigir o olhar para outras possibilidades. Como também avivou Pessoa (Alberto Caeiro): “Procuro despir-me do que aprendi, Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu.”

Enquanto fogos bobos impedimos que as coisas aconteçam, que a gente exista – ultrapassa viver – com o mundo e no mundo. Ademais, é o ser humano, somente ele, capaz de transcender.
Pouco estamos fazendo pelo mundo, pelas gentes, por nós. Sim! Viver é perigoso, a vida é mistério (Guimarães Rosa). “Mas é doce morrer nesse mar de lembrar e nunca esquecer. Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria, isso pra mim é viver…”

Emanuel Filartiga é Promotor de Justiça em Mato Grosso

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