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Eduardo Mahon
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Domingo, 03 de fevereiro de 2019, 14h06

Antes só do que mal acompanhado

Enquanto eu não acabava o café, sentaram-se outras duas mulheres... pedi ao garçom outro café. Com licor... eu tinha tempo.

Quando se está só, costuma-se não demorar num restaurante. Comigo, é justo o contrário. Qual a pressa? Sou daqueles que fica para o cafezinho.

Com esse ritmo, sentei e pedi a carta de vinho. Só queria uma taça, mas tinha tempo para espiar a adega do restaurante.

Ao lado, duas mulheres falavam sobre Carlos. Escolhi um vinho branco, com notas de maracujá. Parecia bom.

A senhora disse que Carlos mudou-se para os Estados Unidos. Ele e a mulher. Cada um tem uma vida e não seria a mãe que iria atrapalhar. Tá certo.

O vinho que chegou combinava com bacalhau.

Pedi um croquete. Duas unidades. Antigamente, vinha mais. Agora, o fino é fazer só dois. Tudo bem.

Enquanto não chegava o pedido, soube que Carlos tinha uma mulher que a senhora tratava como filha. Mas o relacionamento azedou com o tempo e elas se afastaram.

Chegou o croquete. Muito bom. A fritura no azeite faz toda a diferença. Restaurante bom é assim: bacalhau é no azeite. Nada de crosta escura e gordurosa. O bolinho estava liso e sequinho.

Nesse meio tempo, Carlos começou a ter problemas no casamento. A velha já previa. A menina deixou de tratá-la como mãe para tê-la como sogra. Ela alegou falta de caráter. Eu acho que essa acusação foi recíproca. A senhora cutucou: casamento por interesse, sabe como é.

O garçom me disse que a especialidade da casa é um risoto de cordeiro com limão. Eu gosto de cordeiro, mas nunca havia comido desfiado no risoto. Como sempre, aceitei a sugestão. Não vai demorar, me disse solícito o sujeito de gravata borboleta.

De fato, não demorou. Mas deu tempo para saber que Carlos se separou da megera. Aconteceu o pior, porém. A desgraçada contratou um detetive particular. Nem acreditei. Mas era verdade. Quem contrata detetive hoje em dia? Nem sei onde achar um, se precisasse.

O risoto chegou com uma boa cara. Realmente era saboroso. O toque de limão conferiu uma acidez interessante. Pedi uma segunda taça de vinho. Mudei para o tinto.

Carlos também se mudou. Foi para Los Angeles, fugido da mulher. Ocorre que ela descobriu onde o ex-marido escondia o patrimônio não declarado à Receita. Mas que filha da puta!, pensei.

Quando terminei, chamei o garçom contrariado. Sobremesa, por favor. Ele me sugeriu um bolinho de avelã. Topei. Não queria perder o fio da meada.

Enquanto isso, Carlos foi obrigado a dividir o patrimônio. Bem que a velha falou. Mãe é assim: avisa, repete, alerta. É sexto sentido. Toda mãe é igual, só muda o nome. Porém, Carlos não quis ouvir. E foi morar longe, o papudo. Deu do que deu. Bem feito!, falei.

O garçom não entendeu direito. Retifiquei: muito bom! Agora sim, ele sorriu. Pedi o café. Geralmente, o café vem acompanhado de um pétit four. Não deu outra: um docinho de coco equilibrava-se na borda do pires.

As madames levantaram-se e foram embora. Coitado de Carlos, fiquei pensando.

Enquanto eu não acabava o café, sentaram-se outras duas mulheres. Bem mais jovens, dessa vez. A menina com o braço tatuado reclamava de Gabriel. Amigos em casa, sem convite. A cara cheia todo final de semana, um inferno.

Pedi ao garçom outro café. Com licor, dessa vez. Sem pressa. Eu tinha tempo.

 

 

Eduardo Mahon é advogado em Mato Grosso, ex-presidente da Academia Mato-grossense de Letras e, obvio, escritor.
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