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Pesquisa/Tecnologia
Sexta, 01 de junho de 2018, 15h55

Rede sociais e aplicativos tornam quase impossível a tarefa de manter o sigilo de dados na internet


Os dados pessoais armazenados na web são atualmente, no entendimento de vários analistas, o que há de mais valioso nas relações comerciais em todo o mundo. São também a base dos negócios das grandes empresas de tecnologia, em especial o duopólio formado por Google e Facebook. Por isso, essas companhias atuam de forma constante para obterem detalhadas informações do maior número possível de pessoas, o que faz da tarefa de manter o sigilo de dados algo quase impossível em um universo digital repleto de conexões a partir de equipamentos e aplicativos, dizem especialistas.

Uma vez de posse dos dados coletados a partir de uma rede de tentáculos que parece não ter fim, afirmam estudiosos, as gigantes do Vale do Silício fazem uso de seus poderosos algoritmos para estudar e direcionar as ações das pessoas na internet com o objetivo de faturar cada vez mais. O maior problema, diz o cientista da computação Jaron Lanier, é que o comportamento das pessoas foi transformado em um produto a ser manipulado em massa, dentro de um ambiente no qual quase todos estão conectados por dispositivos repletos de aplicativos que coletam informações a serviço do que ele chama de “Behaviours of Users Modified, and Made into an Empire for Rent” ou Bummer, um modelo de negócios do qual dependem Google e Facebook e sustenta a lógica das redes sociais.

“Nosso problema não é a internet, smartphones, alto-falantes inteligentes ou a arte de algoritmos; o problema é a máquina Bummer. E o núcleo da máquina não é exatamente uma tecnologia, mas um estilo de modelo de negócios que lança incentivos perversos e corrompe as pessoas”, afirma Lanier em artigo no jornal The Observer, edição dominical do diário The Guardian. O cientista da computação diz que, para manter rentável esse negócio, as redes sociais e outras gigantes tecnológicas estabeleceram alguns métodos básicos.

O primeiro deles, que dita todos os demais, explora a falta de limites dos seres humanos na tentativa de chamar a atenção, o que muitas vezes os levam “a se tornar idiotas”. Ao mesmo tempo, todos são espionados, principalmente por meio de dispositivos pessoais conectados, especialmente, por enquanto, smartphones. “São coletados dados sobre comunicações, interesses, movimentos, contato com outras pessoas, reações emocionais às circunstâncias, expressões faciais, compras, sinais vitais: uma variedade cada vez maior e ilimitada de informação”, afirma.

Tudo isso é correlacionado por poderosos algoritmos, que escolhem o que cada pessoa experimenta através de seus dispositivos, ressalta Lanier. “Esse componente pode ser chamado de feed, um mecanismo de recomendação ou personalização. Isso significa que cada pessoa vê coisas diferentes. A motivação imediata é fornecer estímulos para modificação de comportamento individualizado”.

Além disso, destaca Lanier, os feeds personalizados são otimizados para "engajar" cada usuário, geralmente com sugestões emocionalmente potentes, levando ao vício. “As pessoas não percebem como estão sendo manipuladas. O objetivo padrão da manipulação é garantir que as pessoas passem cada vez mais tempo no sistema”.

Tecnologia lixo

Esse ciclo viciante foi percebido pela britânica Belinda Parmar, que chegou a referir a si mesma como uma "evangelizadora da tecnologia". Em determinado momento, em meio a seu ativismo, ela percebeu que estava cerca de adictos tecnológicos em sua própria família. "Tenho um filho viciado em videogames. Um sobrinho passou seis semanas em um hospital psiquiátrico, porque se negava a ir à escola, só queria jogar videogame o dia todo", conta ela à BBC.

Com base em novas pesquisas e sua experiência pessoal, Belinda lançou a campanha #TheTruthAboutTech (#AVerdadeSobreATecnologia, em inglês) para alertar adultos e crianças sobre os possíveis malefícios da tecnologia. "Isso [os problemas familiares] me fez enxergar o lado ruim da tecnologia. A verdade é que não podemos controlá-la, ela é que nos controla."

Parmar defende que tenhamos uma vida mais equilibrada. Por isso, lançou sua campanha. "Trata-se de usar a tecnologia de forma que nos conecte, nos ponha de novo em contato com nossas famílias", explica. Ela acredita que os "ditadores digitais do Vale do Silício" devem refletir sobre as plataformas que estão criando e os produtos que oferecem. "Há muitas técnicas de apropriação e manipulação extrema", diz, citando "o retrato perfeito no Instagram que nos reafirma com base no número de curtidas. O valor de nossas amizades segundo o Snapchat. As bolhas sociais criadas pelo Facebook". Ela avalia que 70% da tecnologia consumida por crianças pode ser definida como "tecnologia lixo".

Chantagem cognitiva

Essa toxidade tecnológica, que também afeta adultos, é reflexo do modelo de negócios das grandes companhias do Vale do Silício, segundo a tese de Jaron Lanier. A máquina de modificação de comportamento em massa, afirma o cientista da computação, é alugada para ganhar dinheiro. As manipulações não são perfeitas, mas são poderosas o suficiente para induzirem marcas e políticos a pagarem as empresas Bummer. “A chantagem cognitiva universal segue, resultando em um aumento no gasto global em Bummer.”

Se alguém está fora do alcance desses tentáculos, as companhias digitais tratam de alongar os braços. Exemplo disso, lembra Lanier, é o jornalismo. “Quando o Facebook enfatizou ‘notícias’ em seu feed, todo o mundo do jornalismo teve que se reformular aos padrões de Bummer. Para evitar ficar de fora, os jornalistas tiveram que criar histórias que enfatizassem o clickbait. Foram forçados a se tornar Bummer para não serem aniquilados por ele”. Finalmente, nesse modelo de negócios, a falsidade – bots, perfis falsos, amigos falsos etc – são uma constante.

No combate a esse processo do uso da tecnologia para manipular as pessoas, salienta Lanier, há quem faça analogia com a indústria do tabaco, mas o cientista político prefere a tinta que contém chumbo. "Quando se tornou inegável que o chumbo era prejudicial, ninguém afirmou que as casas nunca deveriam ser pintadas novamente. Em vez disso, após pressão e legislação, as tintas sem chumbo se tornaram o novo padrão”.

Lanier sugere que as pessoas não precisam deixar de fazer uso de tecnologia avançada para evitar a invasão de privacidade e o mau uso de seus dados. No entanto, defende o uso moderado de redes sociais e os aplicativos associados a elas, evitando o que ele chama de Bummer. “Deletem suas contas!”, escreve o cientista da computação no The Observer.

Conversa nada privada

Para muitos, as análises de Lanier e Belinda parecem preocupações com distopias encontradas apenas na literatura de ficção científica. O recente caso de um casal em Portland, nos Estados Unidos, entretanto, fortalece a preocupação dos dois analistas. O casal teve sua conversa gravada e vazada pelo assistente virtual da Amazon, Alexa, para uma das pessoas de sua lista de contatos.

Em nota, a Amazon explicou reconheceu o ocorrido. "O Echo (o alto-falante) 'acordou' devido a uma palavra na conversa de fundo soando como 'Alexa' (o comando que inicia o dispositivo). Então, a conversa subsequente foi ouvida como uma solicitação de 'enviar mensagem'", afirma o comunicado.

A interação não parou ali. "Nesse ponto, Alexa disse em voz alta: 'Para quem?' E a conversa em segundo plano foi interpretada como um nome na lista de contatos do cliente. Alexa então perguntou em voz alta: [nome do contato], certo?' Alexa, em seguida, interpretou a conversa de fundo como 'certo'", afirma a nota da Amazon. "Por mais improvável que essa sucessão de eventos fosse, estamos avaliando opções para tornar casos como esse ainda menos possíveis de ocorrer."

ANJ


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