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Mundo
Sexta, 15 de setembro de 2017, 17h25

Jordânia: tratando pacientes em casa em Irbid


Mohannad e Samir usam sandálias crocs. “Sapatos fáceis de botar e tirar são muito melhores quando você visita a casa de outras pessoas frequentemente”, diz Mohannad.

Conversando animadamente, eles entram em uma van com Moataz, o motorista de hoje. Os três agem como velhos amigos, brincando um com o outro e rindo. “Nós temos que ser amigos e nos divertir”, explica Samir. “Às vezes passamos mais tempo com nossos colegas do que com nossas famílias”. Samir é enfermeiro e Mohannad é médico. Toda semana, eles conduzem visitas às casas de refugiados sírios e de jordanianos em situação vulnerável que sofrem de doenças não contagiosas na província de Irbid, norte da Jordânia. Hoje eles vão visitar quatro pacientes, fazendo uma viagem mais longa que o comum e viajando para novas áreas a fim de acessar aqueles que vivem longe do centro da cidade de Irbid.

O programa de Médicos Sem Fronteiras (MSF) de visitas domiciliares começou em agosto de 2015. “Antes disso, tratávamos pacientes em duas clínicas na cidade de Irbid. Ainda fazemos isso, mas existe uma necessidade de visitas domiciliares. Muitos de nossos pacientes não podem vir até a cidade, ou porque estão muito instáveis fisicamente para fazer a viagem ou porque não podem pagar por ela”, explica Samir.

Na primeira casa que eles visitaram, vivem dois pacientes: o casal Aziz e Azam. A porta da frente é aberta por sua filha e seus três netos. É uma casa térrea com pouquíssimos móveis. É possível perceber a naturalidade e a familiaridade com que os pacientes cumprimentam Samir e Mohannad. “Eu conheço esses pacientes há muito tempo”, diz Samir. “É quase uma extensão da família”.

Samir e Mohannad começam medindo a pressão sanguínea de Aziz e testando seus reflexos. Ele sofreu um derrame, é diabético e, desde algum tempo, está de cama. Apesar de seu estado fragilizado, Aziz tira um tempo para explicar sua situação:

“Estamos aqui há cinco anos. Saímos da Síria porque a minha saúde e a de Azam estavam se deteriorando; e também por causa das bombas. Eu administrava uma fazenda agrícola. Não era o proprietário, mas tinha uma boa renda. Tinha minha própria casa também. Há alguns anos, meu avô palestino passou pela Jordânia para se estabelecer na Síria. Eu gostaria que ele tivesse ficado na Jordânia. Gostaria que não tivéssemos visto essa guerra. Nossa filha ainda está na Síria e nós pensamos nela constantemente. Não é fácil para nós viver aqui: o custo do aluguel é alto e somos oito pessoas em uma casa. Só temos um filho trabalhando. Ele tem que bancar tudo, incluindo eletricidade e as contas. Queremos ir para casa, mas só quando não houver mais guerra e mortes”.

Azam perdeu sua visão há 15 anos. Sofrendo de glaucoma, ela precisa de cirurgia e colírios. Mas, custando 23 dinares jordanianos, até o medicamento é caro demais.

“Viver em meio aos bombardeios e à guerra era muito estressante, sendo cega ou não. Mas estou feliz em estar aqui. A comunidade local nos acolheu bem. Nossos vizinhos nos visitam e os inquilinos até nos deram um desconto no aluguel”.

Azam sofre de diabetes e hipertensão. Enquanto Samir faz um exame de sangue e afere sua pressão sanguínea, Mohannad pega o neto mais novo do casal, que começou a atirar brinquedos. Depois de poucos momentos de inquietude, ele se senta contente ao lado de Mohannad e observa os pássaros voando pela janela.

No caminho até a segunda casa do dia, Samir fala carinhosamente de uma paciente antiga. “Ela foi atingida no quadril por um atirador, mas sobreviveu. Tratamos sua hipertensão e, mesmo naquela condição, ela sempre insistia em nos oferecer café da manhã. Infelizmente, ela morreu há pouco tempo de um ataque cardíaco”.
A terceira paciente que a equipe visita hoje se chama Khairiya. Ela sofre de hipertensão e também é cega. Fazer a viagem até uma clínica na cidade é quase impossível para ela, então ela está contente em receber visitas domiciliares.

“Estamos aqui desde 2013. Era impossível viver na violência e na inquietude da Síria, mas a jornada até aqui também não foi fácil. Tivemos que andar em parte do trajeto. Quando chegamos perto de cruzar a fronteira, um guarda viu que eu era cega. Ele me pegou pela mão e andou comigo a última parte do percurso. Apesar das oportunidades de ir embora para viver nos Estados Unidos ou no Canadá, estou feliz de estarmos na Jordânia, já que compartilhamos as mesmas tradições. Nossa maior preocupação agora é dinheiro. Há cinco pessoas vivendo aqui e nosso filho mal ganha o suficiente para pagar aluguel e alimentação”.

Enquanto Mohannad checa a pressão arterial de Khairiya, sua filha faz café e explica que ela também precisa ver um médico. Mohannad diz a ela que vai encaminhá-la a um médico do Ministério da Saúde. Conforme conversam, seu filho de dois anos engatinha em direção à avó, visivelmente fascinado com o aparelho usado para aferir sua pressão.

A quarta paciente do dia é Saltiya. Ela está de cama e sofreu um derrame recentemente. Enquanto seu marido, sua filha e seu neto recebem Mohannad e Samir em casa, ela luta para abrir os olhos. Saltiya sofreu o derrame há poucas semanas. Ela foi encaminhada para o programa de visitas domiciliares para hipertensão.

Há 12 membros de uma família vivendo nessa casa, mas Saltiya é claramente o foco de preocupação de todos. Apesar do custo da eletricidade, há dois ventiladores girando para refrescá-la no clima quente de verão. O filho dela tem dificuldade de sustentar a família; na Síria, ele era padeiro e seu pai tinha um supermercado. Eles plantavam seus próprios vegetais e também tinham um pomar de oliveiras. Em seus últimos tempos na Síria, a família via mísseis voando bem em cima de casa.

No caminho de volta para a cidade, Mohannad e Samir discutem a natureza desse programa e como ele é diferente dos projetos típicos de MSF de emergência, que respondem aos efeitos imediatos de guerras, epidemias, desastres ou fome. Contudo, visitar os lares desses pacientes mostra uma realidade crua: essas são pessoas com necessidades médicas reais e contínuas, vivendo em situações extremamente precárias. Elas podem ter escapado da guerra, mas o futuro continua incerto.

Nenhum dos pacientes visitados hoje pôde abrir a própria porta e, sem dinheiro ou mobilidade física, a pergunta mais preocupante é: como esses pacientes iriam receber tratamento sem um programa como esse?
 


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