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Mundo
Domingo, 22 de outubro de 2017, 14h49

Oficinas para profissionais de saúde salvam vidas de centenas de mães e bebês no Brasil


As oficinas da estratégia Zero Morte Materna por Hemorragia, desenvolvidas pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) e o Ministério da Saúde do Brasil, têm ajudado a salvar vidas de centenas de mães e bebês.

Em uma delas, realizada no final de junho na cidade de Imperatriz, no Maranhão, cinco instrutores da OPAS/OMS passaram um dia e meio treinando médicos e enfermeiros do sul do estado em técnicas para conter a hemorragia no pós-parto e, assim, evitar esta que é a segunda maior causa de mortes maternas na região das Américas (perde apenas para complicações causadas por hipertensão na gravidez).

“O sul do estado do Maranhão tem uma alta razão de mortalidade materna. É uma região com muitos vazios assistenciais e grandes distâncias entre os pontos de atenção. Por isso, organizamos aulas teóricas e práticas, onde o profissional pode conhecer e fazer, manusear e construir tecnologias leves e de baixo custo, que podem ser utilizadas em suas unidades e ajudar a preservar a vida e a saúde das mulheres”, disse Mônica dos Reis, consultora de saúde da mulher da OPAS/OMS no Brasil e uma das instrutoras da oficina.

O Ministério da Saúde é parceiro da OPAS/OMS nessa iniciativa. Após um estudo da série histórica de mortalidade materna, o ministério elencou oito estados prioritários para receber a estratégia. “Esses estados são convidados a escrever um plano de ação estadual para o enfrentamento da mortalidade e a enviar profissionais para a formação, além de seguir com a estratégia para dentro de suas regiões e unidades de saúde”, explicou Mônica.

Gabriel Osanan é médico especializado em Ginecologia e Obstetrícia, professor de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e instrutor da oficina. Em 2015, ele foi convidado a participar da Oficina Internacional de Zero Morte Materna por Hemorragia, uma iniciativa do Centro Latino-Americano de Perinatologia (CLAP), instituição especializada da OPAS/OMS, em parceria com a Federação Latino-Americana das Sociedades de Obstetrícia e Ginecologia (FLASOG).

Foi então que, em conjunto com o consultor da OMS Adriano Tavares, eles iniciaram uma customização da oficina. “O que nós fizemos foi adaptar os ensinamentos internacionais à realidade que nós temos no Brasil. Fizemos algumas mudanças e atendemos algumas demandas específicas do nosso país”, explicou Tavares.

O projeto já foi implementado em cinco países prioritários na América Latina. No Brasil, antes do Maranhão, a oficina Zero Mortes Maternas por Hemorragia passou por Ceará e Tocantins. Os outros estados que formam o grupo prioritário para receber o projeto são Bahia, Minas Gerais, Pará, Piauí e Rio Grande do Sul.

No Maranhão, mãe de 16 anos sobrevive a hemorragia obstétrica

Balsas é um município do sul do Maranhão que fica a 810 km da capital do estado. Em junho deste ano, Karolene Pereira, de 16 anos, teve seu primeiro filho: Ricardo, que nasceu forte e saudável, pesando 3,9 kg. A adolescente fez todos os exames do pré-natal e a gravidez corria bem até que, imediatamente após o parto, ela teve uma hemorragia por atonia uterina.

Uma das profissionais que logo identificou o risco e iniciou o atendimento foi a enfermeira obstétrica Gervânia Trindade. Ela havia participado de uma oficina Zero Morte Materna por Hemorragia realizada em Araguaína (Tocantins), em março, e utilizou todo o conhecimento aprendido no curso.

“Quando a gente trabalha com base nas diretrizes da oficina, consegue fazer o manejo adequado da situação. Você fica com um olhar mais atento, parece que surge uma luz para a gente depois do treinamento. Eu tenho um empoderamento maior em relação ao que eu posso fazer pela paciente naquele momento”, disse.

Segundo o secretário municipal de Saúde de Balsas, Luiz Flavio Coelho, os índices de mortalidade materno-infantil têm caído. “Em alguns momentos, chegamos a ter os mais altos índices de mortalidade materna no Maranhão, que já é um estado com taxas elevadas”, afirmou.

Ele explicou que o plano para combater esse quadro foi feito em três partes. A primeira envolveu o planejamento familiar: em janeiro deste ano, foi inaugurado em Balsas o primeiro Centro Sentinela de Planejamento Reprodutivo do mundo, em parceria com a OPAS/OMS. A unidade oferece orientações sobre a escolha de métodos contraceptivos e saúde reprodutiva, com foco nas especificidades de cada mulher.

O segundo passo foi o fortalecimento da área de atenção básica, inclusive por meio de capacitações em atendimento pré-natal – envolvendo profissionais do programa Mais Médicos, que foram mobilizados por meio da cooperação entre Brasil, Cuba e OPAS/OMS. A médica cubana Yasmin Córdoba Ramirez, por exemplo, participou desse treinamento.

“Toda a cadeia de cuidado deve estar interligada. Se nós começamos o atendimento de saúde antes que a mulher fique grávida, vamos reduzir os riscos que podem acontecer durante a gravidez. Então, se temos o conhecimento adequado para o atendimento, no final vamos ter uma redução dos índices de morbidade e mortalidade materna”, declarou ela.

O terceiro passo foi o fortalecimento do atendimento hospitalar, com a implementação da estratégia Zero Morte Materna por Hemorragia. “A gente acredita que, com essas ações interligadas, e com o apoio da OPAS/OMS, nós vamos conseguir melhorar a saúde materno-infantil aqui na região de Balsas”, disse o secretário.

Mãe de 22 anos corre risco de morte, mas é salva após histerectomia

Em Fortaleza (Ceará), Valeska Nunes da Silva, de 22, por pouco não perdeu a vida ao dar à luz. A jovem, que teve sua primeira filha no dia 22 de janeiro deste ano, apresentou hipertensão na gravidez e hemorragia no pós-parto. O quadro se agravou tanto que Valeska acabou entrando em coma.

“Eu estava muito inchada, me sentindo mal e fui ao posto. Aí disseram que minha pressão estava a 18 por 8 e decidiram me encaminhar para a internação”, contou.

Durante uma semana, Valeska ficou em observação, sendo medicada para controlar a pressão e agilizar o amadurecimento dos pulmões da bebê Ana Heloísa, que tinha probabilidade de nascer prematura. No dia do parto, Valeska começou a passar mal após a medicação e foi levada às pressas para o centro obstétrico, onde a submeteram a uma cesariana de emergência. Ana Heloísa nasceu bem, mas a mãe não melhorava.

Foi aí que a médica obstetra Soraya de Medeiros, instrutora do Zero Morte Materna por Hemorragia, recebeu uma mensagem no celular sobre o caso de Valeska. A profissional, que havia participado de uma das primeiras oficinas da estratégia, é funcionária do Hospital da Mulher, que fica dentro do Hospital Geral de Fortaleza, exatamente onde a jovem estava internada.

Naquele dia, ela não estava trabalhando, mas decidiu responder à mensagem enviada em um grupo de médicos locais. “O que eu aprendi na estratégia foi muito importante. Eu respondi dizendo que achava que ela precisava ser submetida a outra abordagem e me dirigi até o hospital. Utilizei as técnicas que aprendi na oficina e chegamos à conclusão de que era necessário o uso do TAN (Traje Anti Choque Não Pneumático) e uma cirurgia para retirada do útero, para tentar salvar a vida dela”.

A mãe de Valeska, Maria Jarlene, acompanhou de perto tudo o que aconteceu com a filha. O parto ocorreu por volta das 20h. Às quatro da madrugada, Maria Jarlene acordou com um telefonema do genro, avisando que Valeska havia ingressado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

“Quando cheguei, ela estava toda entubada. O médico disse que tinha hemorragia, que estava tomando muito sangue por cima, mas perdendo tudo por baixo. E que o único jeito era tirar o útero dela. Eu pedi ao médico que pelo amor de Deus salvasse a vida da minha filha e assinei o papel para fazerem a outra cirurgia.”

Valeska, que já estava em coma profundo, foi submetida a uma histerectomia (retirada do útero) e só começou a reagir uma semana depois, mexendo inicialmente alguns dedos. “Depois, o médico me disse que eles quase desligaram os aparelhos, porque ela estava praticamente morta. Eles deixaram mais umas horas para ver se ela ainda ia reagir. Ela passou quase um mês entubada, mas aos poucos foi melhorando. Só depois ela abriu os olhos. Não mexia os braços nem as pernas. Hoje, é um milagre ela estar aqui”, afirmou.

Valeska conta que se surpreendeu com o próprio estado de saúde. “Melhor a vida do que um órgão, né? Nem eu sei como é que me salvei de uma situação dessas, porque, do jeito que estava… Eu não andava e não falava e hoje estou bem. Agora eu só espero coisa boa. Cuidar da minha bebê e ver minha filha crescer”, disse.

Segundo a coordenadora da Unidade de Família, Gênero e Curso de Vida da OPAS/OMS no Brasil, Haydée Padilla, esses casos mostram como a estratégia pode contribuir para a redução da mortalidade materna nas Américas. “Karolene e Valeska foram salvas por um atendimento rápido e com profissionais treinados em reconhecer, controlar e tratar a hemorragia obstétrica. E o objetivo da estratégia Zero Morte Materna por Hemorragia é que esse seja o desfecho em todos os casos”.

“O que nos move é a vontade de mudar, de ver a vida ir em frente, as pessoas felizes e contentes. Isso nos ajuda a inventar, a querer crescer, e é uma recompensa incalculável”, disse a médica e instrutora MS OPAS/OMS Laises Braga. “É assim que conseguimos ajudar as pessoas, e, de alguma maneira, deixar algo de positivo para a humanidade”. 


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