» mais
Comentar           Imprimir
Mundo
Sábado, 03 de fevereiro de 2018, 17h46

'A violência na Colômbia não diminuiu, apenas mudou de nome'


.

Sulaith Auzaque é coordenadora da equipe de urgência de Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Colômbia. Sua pequena equipe é móvel, permitindo a movimentação pelo país de acordo com os alertas de urgência. Na maioria das vezes, esses alertas estão relacionados ao deslocamento da população devido a incidentes violentos, mas também incluem situações de catástrofes naturais ou epidemias. Sulaith explica as intervenções realizadas por sua equipe que mais a marcaram em 2017 e analisa a situação do país neste ano.

Qual é a intervenção que mais a marcou no ano passado?

A que mais me marcou em 2017 foi a cobertura de um desastre natural, a avalanche em Mocoa, capital de Putumayo. A avalanche do mês de abril foi causada pelo transbordamento de três rios e deixou 300 mortos e centenas de desaparecidos, segundo números oficiais. Por ser um evento de alta gravidade, com muitos mortos e desaparecidos, mobilizou-se muita ajuda e, portanto, o problema não era a falta de pessoal ou de meios para ajudar, mas sim, a coordenação para oferecer ajuda eficiente.

O que MSF fez?

O hospital local não foi afetado, embora tenha sido por pouco. Fizemos uma grande doação de medicamentos e materiais de urgência (kits de trauma etc.). Também atendemos as pessoas diretamente nos abrigos, visto que o hospital tinha que se concentrar nos casos mais graves. E claro, tinha muita coisa a se fazer em termos de saúde mental, dada a quantidade de pessoas que perderam entes queridos ou não sabiam o que tinha se passado com os membros de suas famílias. Era um processo complexo e de muita aflição e lá nossa ajuda de acompanhamento e saúde mental foi bem-vinda. A quantidade de crianças que desapareceram era enorme e isso aumentou a tristeza e o desespero.

Durou quanto tempo?

A intervenção durou um mês. Como havia outras organizações locais de ajuda e a nossa presença podia ser solicitada em outros lugares, assim que instruímos as organizações locais para continuar o trabalho, finalizamos nossa intervenção.

Essa foi uma operação excepcional, como é uma atuação clássica de sua equipe?

As intervenções mais clássicas da equipe de urgência de MSF na Colômbia nos últimos anos se concentram na violência, no deslocamento ou reclusões ocasionadas pela violência. De forma regular, somos três pessoas: uma coordenadora e médica (eu), um especialista em saúde mental e um logístico. Isso nos permite ser mais móveis. Estamos atentos aos alertas, os confirmamos, nos deslocamos para verificar localmente e, caso necessário, atuamos imediatamente. Podemos estender nossa presença pelo tempo que for necessário.

Uma das intervenções clássicas que realizamos em março de 2017 foi em Chocó, devido ao deslocamento de quase 600 pessoas. Neste caso, fica claro que o processo de implementação do acordo de paz firmado entre as FARC e o governo não é sinônimo imediato do fim da violência. Essa é uma zona que por sua localização, proximidade com o Panamá, com rios e matas, propícia a atividades ilícitas, cultivo de coca e produção da base de coca, se torna bastante atrativa e se insere na disputa territorial entre grupos. A saída das FARC criou um vazio que outros grupos preencheram, com violência, por isso o deslocamento da população. Nós subimos pelo rio até Pie de Pató e continuamos a oferecer nossa atenção médica e psicológica. Muita gente fica com suas famílias na cidade (de maneira amontoada) ou se instala em abrigos comunitários. Porém, em geral, elas se estabelecem em locais que não estão preparados para acolher tanta gente, ou seja, não há coberturas ou tendas, nem latrinas suficientes etc..

Nota-se uma diminuição da violência?

A violência não diminuiu, apenas mudou. Os nomes dos grupos armados e talvez a maneira de exercer a violência mudaram, mas não diminuíram. Aqueles que pararam com a violência são substituídos por novos. Onde os civis estavam acostumados com o regime imposto por alguns que já não estão, agora, eles têm que fazer de acordo com o regime de novos grupos, que “mostram seu valor” através da violência, utilizando a crueldade para garantir a obediência.

Nesse sentido, como você vê o ano de 2018?

A convocação de eleições neste ano pode ser também uma causa para o aumento da violência, dado que um ou outro grupo pode se posicionar por um ou outro candidato, podendo ser a causa de maior instabilidade. Temos que ter em conta a polarização da sociedade a respeito do apoio ou não à continuação do processo, o que pode gerar consequências gravíssimas em determinadas comunidades. Neste panorama, é necessário que o Estado fortaleça a resposta de saúde primária e saúde mental no caso de emergências em zonas remotas, de difícil acesso por condições geográficas ou pela presença de atores armados.

Para este ano, Médicos Sem Fronteiras vai reforçar a equipe de urgência com uma pessoa a mais: uma enfermeira que fortalecerá a atenção médica, sem diminuir a mobilidade da equipe. Em alguns lugares aos quais tivemos acesso, há três anos não havia atenção médica!

Como se chega a essa situação?

É o resultado de uma combinação: a missão médica pode ter sido atacada ou estigmatizada em determinadas zonas, mas a isso soma-se também um esquecimento institucional que, sob a desculpa da violência, não ajuda os lugares que necessitam. Portanto, opta-se por um abuso de centralização dos serviços médicos e é sempre o paciente que tem que se deslocar para ser atendido. Por outro lado, os grupos armados que tomam um novo território podem restringir o acesso à ajuda médica, especialmente nas zonas onde o cultivo de coca, da base de coca e a mineração são maiores. Nosso acesso é negociado com os líderes das comunidades, que são os que obtêm permissão dos grupos. Quando a permissão é garantida e nós entramos, tentamos entrar em contato com os líderes dos grupos para reforçar nossa presença baseada nos nossos princípios de neutralidade, independência e imparcialidade. Nosso objetivo é chegar na fase mais aguda das necessidades e logo poder assegurar a assistência através de outros grupos.


Comentar           Imprimir


Busca



Enquete

A onda 'não eleja parentes' pode afetar Emanuelzinho Pinheiro?

Afeta pois o pai prefeito Emanuel foi flagrado no caso do paletó furado.
Não afeta e segue separado dos problemas do pai
Tanto faz, o povo não não leva a sério o voto.
  Resultado
Facebook Twitter Google+ RSS
Logo_azado

Plantão News.com.br - 2009 Todos os Direitos Reservados

email:redacao@plantaonews.com.br / Fone: (65) 8431-3114