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Mundo
Quarta, 04 de julho de 2018, 12h52

Cresce o escrutínio sobre as responsabilidades do Facebook no uso indevido de dados privados


A polícia federal dos Estados Unidos (Federal Bureau of Investigation, FBI), o Departamento de Justiça (Department of Justice, DOJ) e a Comissão de Títulos e Câmbio (Securities and Exchange Commission, SEC, equivalente à Comissão de Valores Mobiliários, CVM, no Brasil) juntaram-se à Comissão Federal de Comércio (Federal Trade Commission, FTC) para investigar o uso ilegal de dados de quase 90 milhões de usuários do Facebook, por parte da Cambridge Analytica, em favor da campanha de Donald Trump à presidência norte-americana. A investigação coletiva quer apurar a responsabilidade da rede social de Mark Zuckerberg no escândalo – além de saber se a empresa e o bilionário mentiram ou não sobre o que sabiam – e chega acompanhada de mais notícias de abusos do duopólio digital, formado por Facebook e Google.

As notícias deixam cada vez mais claro que o modelo de negócios com o qual essas gigantes de tecnologia controlam o mercado digital são uma ameaça às democracias e ao bem-estar das sociedades. Essa é opinião do criador da internet (World Wide Web), Sir Tim Berners-Lee. “Fiquei arrasado”, disse o inventor em entrevista à revista Vanity Fair, ao comentar a interferência da Rússia nas eleições dos Estados Unidos e o escândalo da Cambridge Analytica. Para ele, a web fracassou no seu objetivo original, o de servir a humanidade. “[O duopólio] acabou produzindo – sem ação deliberada das pessoas que projetaram as plataformas – um fenômeno emergente de grande escala que é anti-humano", criticou.

As preocupações de Berners-Lee estão amparadas por uma sequência interminável de escândalos envolvendo os gigantes de tecnologia. O principal foco, no momento, está no Facebook. Mas uma reportagem do The Wall Street Journal mostra que as práticas de privacidade de dados do Google são tão estarrecedoras quanto às da maior rede social do planeta. A gigante de buscas continua a permitir que centenas de desenvolvedores externos de software leiam as caixas de entrada de milhões de usuários do Gmail, oferecendo comparações de preços de compras, planejadores automatizados de itinerário de viagens ou outras ferramentas.

Ao mesmo tempo, soube-se nesta semana que o Facebook concedeu a dezenas de empresas – cerca de 60 fabricantes de hardwares e softwares, incluindo chineses – acesso especial aos dados de seus usuários e de amigos deles na rede social, fato que a empresa negava anteriormente – o que pode subsidiar a investigação federal em curso. O objetivo do compartilhamento de informações, informou a companhia, era tornar a plataforma mais eficaz em aparelhos móveis, seguindo a prática do discurso do bom-mocismo que tanto Zuckerberg insiste.

Os fatos, porém, desmontam a versão angelical do Facebook. Também nesta semana foi noticiado que o Facebook patenteou um sofisticado sistema que consegue acessar o microfone de celulares de usuários e, com isso, monitorar, por exemplo, o que as pessoas estão vendo na televisão. O objetivo é coletar os dados e, com eles, direcionar publicidade. O Facebook reconheceu a iniciativa, mas a desqualificou. Em comunicado, a empresa disse que é prática comum registrar patentes para prevenir que outras empresas façam o mesmo primeiro. “A tecnologia desta patente ainda não foi incluída em nenhum dos nossos produtos, nem nunca será”, diz a nota.

Anunciantes revoltados

Além das investigações em curso e das críticas de renomados analistas e das empresas de jornalismo, que estão entre os principais prejudicados pelo modelo de negócios de Google e Facebook, é crescente a manifestação de insatisfação daqueles que são a base da monetização das gigantes de tecnologia: usuários e anunciantes. É que acontece com a mais recente calibragem do Facebook em seus algoritmos para detectar propagandas políticas.

Até aqui, apenas os publishers vinham se queixando da mudança, que passou a classificar impulsionamentos de notícias tal qual propaganda política e eleitoral. Agora, entretanto, anunciantes começaram a reclamar. Marcas disseram à Bloomberg que seus anúncios que mencionam a palavra “bush”, por exemplo, foram marcados como conteúdo político, mesmo que não tenham relação com o tema. Pelo mesmo motivo, os filtros do Facebook afetaram publicidade de uma loja Walmart no Texas (EUA).

Clinton, um nome comum nas cidades americanas, também está acionando o algoritmo, segundo a Bloomberg. Empresas que tem a palavra em seu nome, como o iPawn Clinton, tiveram seus anúncios removidos. A WeWork enfrentou o mesmo problema a apoiar a #pride em 20 de junho e em um anúncio de seus escritórios da WeWork em Chicago. As duas peças publicitárias foram rotuladas e arquivadas como anúncios com conteúdo político.

O site especializado em comunicação Digiday relata que há frustração entre os anunciantes e suas agências por não conseguirem identificar corretamente quais anúncios precisam ser rotulados como políticos. Essa dificuldade tem inclusive atrasado campanhas. Além disso, os compradores de mídia para marcas estão fazendo malabarismos com o processo inicial de registro, que pode levar algumas semanas para ser concluído.

Enquanto Google e Facebook acumulam problemas como esses e causam mazelas às sociedades, como as notícias falsas, motivando discursos e iniciativas de regulação externa -- que muitas vezes podem vir acompanhadas de censura --, há quem esteja, como se diz no jargão, pensando fora do quadrado. Neste caso é ninguém menos que pai da internet. Sir Tim Berners-Lee trabalha no Solid, uma plataforma projetada para descentralizar a internet e dar às pessoas controle sobre seus próprios dados. "Estamos construindo todo um ecossistema", anuncia, esperançoso.

ANJ


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