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Mundo
Sábado, 20 de outubro de 2018, 18h37

Iêmen: 'mulheres e crianças doentes chegam tarde ao hospital que não podemos salvar'


Gonzalo Martinez/MSF
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Gisela Vallès é coordenadora da equipe médica do hospital de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Abs, capital do distrito de mesmo nome no norte do Iêmen. O aumento dos combates na região nas últimas semanas está causando novas ondas de deslocamento de pessoas. Gisela explica os desafios e obstáculos que sua equipe enfrenta ao prestar assistência aos grupos de deslocados internos e às comunidades que os recebem.


Como o conflito afeta as pessoas no distrito de Abs?
O hospital de MSF em Abs está atualmente recebendo feridos de guerra todos os dias. Entre agosto e setembro, tratamos 362 feridos; mais de 40% de todos os feridos que tratamos em 2018 nessa instalação. Muitos são civis que são pegos no fogo cruzado de ataques aéreos e de mísseis. O aumento dos combates a cerca de 50 quilômetros ao norte de Abs, na área de Beni Hassan, perto da fronteira com a Arábia Saudita, provocou uma nova e maciça onda de deslocamento. Desde agosto, cerca de 20 mil pessoas se deslocaram para outras partes da região, juntando-se a milhares de outras pessoas que fugiram dos combates anteriores. É difícil identificá-los porque não há campos formais para deslocados internos. Eles estão espalhados por uma área muito grande. Às vezes, existem grupos de deslocados internos vivendo sob coberturas de plástico básicas que compram ou que são doadas a eles. Outras vezes, eles se misturam com as comunidades locais. De qualquer forma, todos vivem em condições muito precárias.

Eles têm acesso a serviços de saúde?
A maioria não tem acesso aos serviços de saúde porque, após vários anos de conflito, há poucos centros de saúde abertos no distrito de Abs. Muitos centros de saúde não funcionam mais ou estão abertos apenas por algumas horas por dia com apenas uma enfermeira ou uma pequena equipe. Aqueles que trabalham nos centros de saúde não recebem salários há mais de dois anos e trabalham sem equipamentos médicos adequados. O sistema de saúde não pode responder às necessidades dos deslocados internos e, ao mesmo tempo, estamos gravemente restringidos em relação à assistência que podemos oferecer nos lugares que estão absorvendo novas comunidades deslocadas. Em setembro, nossa equipe móvel só conseguiu ir à periferia de Abs sete vezes durante o mês, apesar de estar preparada para sair todos os dias. Além disso, nas últimas semanas, a moeda iemenita, o ryial, perdeu muito valor, enquanto a inflação subiu, fazendo com que os custos de combustível e transporte aumentassem. Isso fez com que o acesso de muitas pessoas ao hospital em Abs se tornasse impossível. É importante que as poucas organizações médicas que apoiam o Ministério da Saúde no terreno ganhem mais acesso para atender às necessidades das comunidades deslocadas e vulneráveis.

Quais são as consequências dessa situação?
Uma consequência que me impressiona é ver muitos pacientes chegarem tarde demais ao hospital. Algumas mulheres grávidas e crianças doentes chegam tão tarde ao hospital que não podemos salvar suas vidas. Praticamente nenhuma das mulheres aqui recebe cuidados pré-natais porque este serviço é inexistente ou ineficaz fora da cidade de Abs. Elas chegam com condições que poderiam ser evitadas, como eclâmpsia e pré-eclâmpsia, que podem ser fatais para a mãe. Ao providenciar cuidados pré-natais adequados e garantir um parto seguro, poderíamos reduzir o risco de complicações tanto para mães como para recém-nascidos.

Como nossas equipes trabalham para chegar a tempo?
Em áreas onde a situação de segurança e as autoridades permitem, temos uma rede de agentes comunitários de saúde que gerenciam um sistema de encaminhamento para os casos mais graves. Atualmente, nos concentramos nas áreas com novos acampamentos de deslocados internos onde faltam os serviços mais básicos. Em setembro, 153 pacientes de outras partes da região foram encaminhados ao hospital de Abs, 50% a mais do que em agosto, enquanto em julho a situação foi mais estável. A previsão é de que no futuro próximo haverá muito mais pacientes encaminhados, à medida que as hostilidades se intensificam.

A situação pode piorar?
O agravamento do conflito [que escalou em março de 2015] está minando a capacidade das organizações no terreno de fornecer alívio, serviços de água e saneamento, alimentos etc. A alta inflação – ligada à rápida desvalorização do ryial e às restrições de importação – pode ter um impacto sobre o estado nutricional da população. Continuamos a receber muitos casos de doenças facilmente evitáveis, como a difteria. Isso mostra que o impacto da guerra na deterioração do sistema de saúde está afetando cada vez mais o alcance de vacinação.


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