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Mundo
Domingo, 21 de outubro de 2018, 07h54

Venezuelanos querem oportunidades e acesso a serviços no Peru


Luis Antonio Pérez (no centro), de Barquisimeto, Venezuela, vende chocolate quente e pão doce do lado de fora da Superintendência de Migrações do Peru, em Lima. Foto: ACNUR/Santiago Escobar-Jaramillo

Nas ruas de Lima, o número de vendedores informais se multiplicou desde 2015. A maioria desses comerciantes é de venezuelanos. Eles são fáceis de reconhecer: usam bonés com um V brilhante na frente e jaquetas com as cores de sua bandeira — amarelo, azul e vermelho — estampadas no peito. Eles também vendem produtos que normalmente não são conhecidos pelos peruanos, como pastéis venezuelanos e arepas, um prato típico feito com farinha de milho.

Luis Antonio Pérez vende chocolate quente e pão doce. O jovem de 24 anos veio de Barquisimeto, no noroeste da Venezuela. O trajeto foi uma parte a pé, outra de carona. Ele e seu melhor amigo demoraram 20 dias para chegar até Lima. Antonio estudava filosofia em seu país, mas assim que a situação piorou, o estudante teve que abandonar o curso. “Ou eu estudava ou comia. Escolhi comer”, conta.

Mais de 2 milhões de pessoas deixaram a Venezuela desde 2015. Cerca de 450 mil pessoas partiram rumo ao Peru, país com o segundo maior número de recém-chegados venezuelanos, ficando atrás apenas da Colômbia, que já abriga mais de 1 milhão em seu território. O Peru também se tornou o principal país de destino dos venezuelanos que buscam proteção, com mais de 150 mil pedidos de refúgio.

“Eu elogio o Peru por manter suas portas abertas e criar vias legais alternativas para possibilitar aos venezuelanos a permanência no país. Abordar as necessidades humanitárias dos venezuelanos e facilitar os trâmites legais para trabalhar e acessar os serviços sociais nos países de acolhida deve ser uma prioridade regional, e isso exigirá maior apoio da comunidade internacional”, disse o alto-comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, durante visita recente a Lima e também a Tumbes, na fronteira Peru-Equador.

O dirigente fez uma missão de uma semana na América do Sul para ver em primeira mão os desafios de migrantes e refugiados que deixaram a Venezuela. O representante das Nações Unidas também discutiu como melhorar a resposta e o acolhimento dos venezuelanos em países de destino.

Luis Antonio fica com sua garrafa térmica em uma esquina movimentada, em frente à sede da Superintendência Nacional de Migração do Peru. Desde maio de 2018, o escritório está aberto 24 horas por dia para atender ao grande número de pedidos de venezuelanos que buscam legalizar seu status no país. Lima é o único lugar onde eles podem obter uma permissão temporária que lhes permita trabalhar em território peruano. Por isso, o escritório recebe milhares de visitas por dia.

Uma área de recepção foi transformada em uma creche, onde professores voluntários do ensino primário cuidam de crianças enquanto seus pais esperam pela papelada. Os brinquedos, giz de cera e blocos disponíveis no local são doações de oficiais de migração.

O Peru está tentando facilitar o processo de regularização do status migratório, a fim de garantir oportunidades de trabalho para os venezuelanos. Em janeiro de 2017, o governo peruano estabeleceu uma Permissão de Estadia Temporária para os que entraram legalmente no Peru. A autorização prevê o direito de trabalhar, de estudar e de abrir uma conta bancária por um ano, com a possibilidade de renovação. Mais de 110 mil venezuelanos já conseguiram o documento.

“Precisávamos de um mecanismo que lhes permitisse permanecer no Peru. Eles ficam ainda mais vulneráveis se não forem registrados formalmente”, explica Roxana del Águila, gerente-geral da Superintendência Nacional de Migração.

Acesso à saúde
O acesso aos serviços sociais salvou a vida da esposa de Kelvin Briceño. Logo depois que a família se reencontrou em Lima, em janeiro de 2018, Marelis ficou muito doente. Uma noite, ela desmaiou e Kelvin a levou para o hospital. Marelis passou 22 dias na unidade de terapia intensiva com insuficiência renal.

A renda de Kelvin vendendo chá gelado na rua não era suficiente para pagar as contas do hospital. Durante a internação, ele também teve que cuidar sozinho de filha de dois anos, Jimena.

“Eu não tinha dinheiro para pagar, não tinha plano de saúde”, lembra Kelvin. “Eu estava com medo de que ela adoecesse de novo porque não conseguiríamos arcar com os preços de uma diálise regula.”

Três semanas depois, Marelis sofreu uma nova crise. Ela passou mais 12 dias hospitalizada. Mas dessa vez, ela já tinha conseguido legalizar o seu status no Peru devido à doença. Com isso, a venezuelana teve acesso ao sistema público de saúde. Poucos venezuelanos – apenas 0,6% dos que estão no Peru – recebem permissões especiais de permanência relacionadas a vulnerabilidades, como a de Marelis. Esses documentos garantem acesso ao sistema nacional de saúde.

Marelis agora consegue fazer diálise regularmente. Kelvin está buscando uma permissão de estadia temporária para ele e sua filha Jimena, ainda que a autorização não conceda acesso ao sistema de saúde. Apenas mulheres grávidas e crianças com menos de cinco anos podem utilizar a rede pública de atendimento. A família consegue se sustentar vendendo as empanadas que Kelvin cozinha cedo pela manhã. Eles moram em um local cedido pela igreja.

Impacto psicológico das migrações
Segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), os refugiados e migrantes venezuelanos que estão no Peru precisam urgentemente de aconselhamento e de apoio. Além de comida e abrigo, as longas e difíceis jornadas que enfrentam têm impacto na sua saúde psicológica.

Logo após a chegada ao abrigo temporário de Scalabrini, Luz Tamara Angulo começou a dar assistência psicossocial para outros companheiros venezuelanos. Embora ela esteja no Peru há apenas quatro meses e meio, Luz se tornou a pessoa responsável pelos 80 compatriotas que vivem atualmente no abrigo.

Ela ouve pacientemente as suas histórias e responde a questões sobre como achar um trabalho ou legalizar o status de refugiado. Mais de um quarto deles são crianças. Luz dedica atenção especial às suas necessidades psicológicas.

“Muitos estão ansiosos com o desconhecido porque perderam o seu lar”, diz a venezuelana. “Perderam sua comunidade e sua família. Perder tudo isso em um piscar de olhos é algo que eles não entendem.”

Luz também notou que muitas crianças ficaram muito tempo sem alimentação adequada. “Isso tem um impacto enorme sobre os aspectos cognitivos da criança”, avalia.

O psicólogo Julio Rondinel notou padrões semelhantes entre os adultos. Ele trabalha com um grupo de venezuelanos em Callao, um subúrbio da classe trabalhadora de Lima. Depressão e ansiedade são muito comuns entre os estrangeiros que vivem na vizinhança.

Muitos sofrem “crises emocionais” devido ao fato de que grande parte de sua família ainda se encontra na Venezuela, explica o psicólogo. “Eles representam a esperança de toda família em sobreviver. Estar aqui significa que ‘eu vim para salvar os outros’”, diz o terapeuta.

Outro elemento que agrava o estresse é o fato de que muitos dos venezuelanos que chegam ao Peru são profissionais qualificados. Lá na Venezuela, eles eram professores, médicos, engenheiros, enquanto aqui no Peru, eles lutam para conseguir um emprego e muitas vezes se tornam vendedores informais nas ruas.

“O tipo de trabalho que eles estão realizando também tem um impacto psicológico”, afirma Rondinel. “Isso afeta sua autoconfiança, sua aceitação social.”

Migsoe Moreno, de 40 anos, é um dos pacientes do psicólogo. Na Venezuela, ela era professora, mas ao longo dos últimos três meses vivendo em Lima, a educadora não conseguiu achar um emprego estável. Para manter a si e suas duas filhas, teve de virar vendedora ambulante.

“Nós viemos preparados e queremos contribuir com nosso conhecimento para este país”, diz Migsoe com lágrimas nos olhos. “Queremos formalizar a nossa estadia neste país que está abrindo suas portas para nós.”

 


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