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Nacional
Sábado, 07 de julho de 2018, 07h01

Ernst Hamburger, pesquisador e divulgador da ciência, morre aos 85 anos


O físico Ernst Hamburger morreu em São Paulo, na tarde de 4 de julho de 2018, aos 85 anos. O enterro foi realizado no dia seguinte no Cemitério do Morumbi.

Hamburger realizou pesquisas na área de Física Nuclear e deu importantes contribuições ao ensino e à divulgação científica, tanto na direção do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) como na direção da Estação Ciência, entre outras atividades.

“Teve papel fundamental em mudar o rumo do Instituto de Física da Universidade de São Paulo na direção de se preocupar com a educação e em disseminar as informações resultantes da pesquisa científica para a sociedade”, disse o também físico José Goldemberg, presidente da Fapesp, por ocasião da outorga do título de Cidadão Paulistano a Hamburger, em 2014.

“O professor Hamburger foi uma referência, como liderança científica e na política acadêmica. Ideias claras, poder de exposição, objetividade e determinação. Defendeu sempre e com eficácia a boa universidade pública e os valores acadêmicos. Aprendi muito com ele e sentiremos sua falta”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp.

Ernst Wolfgang Hamburger nasceu em Berlim, Alemanha, em 8 de junho de 1933, no mesmo ano em que Hitler subiu ao poder. Seu pai era juiz e foi demitido do cargo por ser judeu. Com a escalada do nazismo e do antissemitismo, a família teve que abandonar a Alemanha e desembarcou no Brasil, no Porto de Santos, em 1936. Hamburger tinha, na época, apenas 3 anos de idade. Mais tarde, sua família participou da fundação da Congregação Israelita Paulista.

No ginásio e no colegial, foi colega e amigo íntimo de outro importante físico judeu, Herch Moysés Nussenzveig. No curso de Física da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, participou de aulas ministradas pelo físico norte-americano David Bohm (1917-1992), então refugiado no Brasil devido à perseguição macarthista nos Estados Unidos. Faziam parte da turma Newton Bernardes, Nussenzveig, Gerhard Bund, Ewa Cybulska e a também física e historiadora da ciência Amélia Império (1932-2011), com quem se casou.

Hamburger graduou-se na USP em 1954. Em 1956, seguiu com Amélia para a University of Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde ela fez o mestrado e ele o doutorado. Em Pittsburgh, realizou pesquisa experimental, utilizando um acelerador de partículas cíclotron, e produziu sua tese sobre reações nucleares do deutério.

O interesse sobre a estrutura do núcleo atômico continuaria a ser dominante em sua trajetória científica. “Queria entender a relação entre sucessivos núcleos na tabela periódica, ou seja, como vão se formando os diferentes compostos da tabela. O berílio, por exemplo, é um átomo de lítio mais um próton”, disse Hamburger em entrevista à revista Pesquisa Fapesp em 2014.

O casal voltou ao Brasil, mas teve que regressar aos Estados Unidos em decorrência das perseguições políticas promovidas pela ditadura civil-militar. “Quando houve o golpe de 1964, todo mundo na Faculdade de Filosofia [da USP] ficou muito desanimado porque alguns fundadores da Física estavam sendo expulsos”, disse Hamburger na entrevista citada.

Amélia e Ernst retornaram pela segunda vez ao Brasil em 1967. E, no ano seguinte, ele se tornou professor catedrático do Departamento de Física, mais tarde Instituto de Física da USP (IFUSP).

“Em 1970, Amélia e Ernst foram presos e processados por sua oposição ao regime ditatorial”, disse Vera Bohomoletz Henriques, professora do IFUSP, à Agência Fapesp.

O período de prisão foi curto, mas o regime continuou cerceando a carreira de Hamburger, impedindo-o de aceitar um convite para lecionar na Inglaterra. Ensinou por um tempo na Universidade Federal da Bahia e depois regressou à USP, onde permaneceu, mesmo depois da aposentadoria, até ficar doente pouco tempo atrás.

Como diretor do IFUSP, Hamburger colocou em primeiro plano sua vocação para o ensino e, depois, também para a divulgação da ciência. “Ele foi um dos criadores, na Universidade de São Paulo, da pós-gradução interunidades em ensino de ciências; organizou o primeiro Simpósio Nacional de Ensino de Física, que viria a se tornar um evento regular da Sociedade Brasileira de Física, e destacou-se, principalmente, por sua condução à frente da Estação Ciência”, disse Ivã Gurgel, professor do IFUSP e coordenador do Grupo de Teoria e História dos Conhecimentos (TeHCo), que colaborou com Hamburger no campo do ensino, à Agência Fapesp.

Hamburger foi diretor da Sociedade Brasileira de Física (SBF) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e comendador da Ordem Nacional de Mérito Científico do Brasil, recebeu vários prêmios no país e no exterior, entre eles, o Kalinga Prize for the Popularization of Science, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Para aquilatar a importância dessa premiação, vale lembrar que o rol dos ganhadores do Kalinga Prize inclui nomes como os de Louis de Broglie, Julian Huxley, George Gamow, Bertrand Russell e Konrad Lorenz, entre outros notáveis.

Ernst e Amélia tiveram os filhos Esther (1960), Sonia (1961), Carlos (o cineasta Cao Hamburger, 1962), Vera (1964) e Fernando (1970).  

Agênci Fapesp


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