» mais
Comentar           Imprimir
Variedades
Quarta, 08 de novembro de 2017, 00h35

O marechal que viveu à frente do seu tempo agora é vítima de uma década de descaso


Fotos: Rui Matos
.

Portal Matogrosso

O dia amanhece no distrito de Mimoso com o céu avermelhado. Não demora, e logo vai pigmentando de azul turquesa o telhado natural de um recanto encravado entre morros na divisa dos municípios de Santo Antonio de Leverger e Barão de Melgaço, distante cerca de 60 quilômetros de Cuiabá (MT) indo na direção do Pantanal. O vilarejo, formado por pescadores, pequenos sitiantes e funcionários públicos é pequeno, mas tem um charme bucólico de encher os olhos de quem o visita. É rico em histórias e ainda pode-se ver por lá fogão à lenha com lascas de angico estalando, pessoas tomando café na calçada, cheiro de bolo, portas e janelas abertas até altas horas. Entre os meses de dezembro e abril seu povo vê a água gelada do Pantanal lamber a terra nos arredores, sem pressa, até formar um mar de água doce. Esse foi o cenário que o menino Candido Mariano da Silva Rondon via quando garoto.

Se estivesse vivo, o então Marechal Rondon teria hoje quase 150 anos e estaria vendo o mesmo paraíso do amanhecer ao entardecer.

“Dá tristeza até de olhar pra isso tudo fechado”, completou seo Dito, ajeitando algumas garrafas com remédio caseiro numa caixa de madeira presa na garupa da bicicleta

No entanto, Rondon certamente não estaria muito contente com o descaso à sua trajetória de vida, conquistas e histórias que não acabam mais. Estamos falando do Memorial Rondon. Um ano após a sua inauguração, o espaço cultural foi fechado pela segunda vez. A primeira vez em que o Estado fechou as portas à visitação foi em novembro de 2016, com apenas três meses de inauguração. A justificativa foi que precisavam concluir as obras. “Foi só fogo de palha”, reclamou Benedito Conceição, o ‘Dito Raizeiro’, que vive em Mimoso há 69 anos. “Dá tristeza até de olhar pra isso tudo fechado”, completou, ajeitando algumas garrafas com remédio caseiro numa caixa de madeira presa na garupa da bicicleta.

 

.

O histórico do Memorial é de fazer Rondon se mexer na sepultura de tanta vergonha e raiva. A sua história é tão longa e cheia de detalhes quanto a saga do velho pantaneiro que virou herói nacional. O Memorial faz parte do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Turismo (Prodestur) e custou, inicialmente, R$ 2,9 milhões, sem somar os aditivos que encareceram a obra ao longo de mais de uma década. Projetado em 1997, só iniciado em 2001, ficou parado por 12 anos. Moradores já haviam até se acostumado com o esqueleto em aço e concreto sobre a água. Serviu, por muito tempo, como campo de pouso para tuiuiús. Após o esquecimento por parte do Estado, a discussão para continuidade do complexo foi retomada com todo vigor em 2012 com a confirmação da Copa do Mundo em 2014. O Brasil perdeu a Copa, a obra não saiu e só foi retomada timidamente em 2015. Hoje, especificamente, o Memorial Rondon está fechado de novo e sem nenhum operário trabalhando.

"Projetado em 1997, só iniciado em 2001, ficou parado por 12 anos. Moradores já haviam até se acostumado com o esqueleto em aço e concreto sobre a água. Serviu, por muito tempo, como campo de pouso para tuiuiús"

Lembra do seo Dito, que citamos no início do texto? Pois é. Ele foi o nosso guia para fazer a reportagem. Não foi difícil entrar, pois as grades laterais que servem de portas e janelas estavam suspensas. Quando fechadas estão amaradas com arame. Isso mesmo, arame no lugar de cadeado. E estão assim desde a época em que o espaço estava aberto à visitação. Um passo em falso e o arame pontiagudo pode furar alguém. Andamos pelo salão oval e encontramos fotos históricas sendo devoradas por cupins e mofo. Algumas jogadas ao piso de madeira.

Quando não é cupim destruindo, é formiga. Em todos os cantos há um castelinho de terra com os insetos saindo pela torre em busca de uma pele para picar. São carnívoras e, quando atacam uma pessoa, em pouco tempo aparece uma bolha purulenta no local picado. Geralmente, crianças são as maiores vítimas. Seo Dito, coitado, quase caiu da escada quando descíamos do andar de cima. É que os lances são mais pequenos que os pés de um adulto. Criança até que sobe e desce sem problema. Sem entender a causa do fechamento, o raizeiro brincou: “Tenho remédio pra tudo, menos para isso aqui”. Após estampar no rosto um riso de mostrar todos os dentes, Benedito Conceição foi embora falando sozinho.

 

.

GOVERNO SE DEFENDE

"O Complexo Turístico e Histórico de Mimoso – Memorial Rondon” é um equipamento público em fase inicial de gestão em cooperação mútua por quatro secretarias de estado: Secretaria de Estado de Cultura, Secretaria de Educação, Esporte e Lazer, Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Secretaria de Ciência e Tecnologia, com a previsão de desenvolvimento de ações nas áreas correlatas - educação, cultura, pesquisa científica e tecnológica e turismo, entre outras. O processo de seleção pública para contratação de instituição gestora do espaço está em fase final, neste momento sob análise do Conselho de Desenvolvimento Econômico (Condes), explicou o governo do Estado em nota.

Ainda segundo a nota, após a aprovação deste, será contratado o Instituto de Desenvolvimento Tecnológico e Humano (IDTech), instituição que foi a vencedora do processo acima mencionado. Caberá à instituição contratada o desenvolvimento de ações previstas em contrato, voltadas ao desenvolvimento econômico e humano, democratizando e fortalecendo o acesso à educação e cultura, de forma sustentável e continuada, garantindo o acesso dos cidadãos aos bens e serviços culturais e turísticos, valorizando a diversidade da cultura mato-grossense. Vale ressaltar que o IDTech foi a única instituição a se inscrever no edital de chamamento público de gestão do Memorial Rondon e foi classificada por atender aos requisitos constantes nos editais para a classificação e apresentar proposta vantajosa para administração pública".

GUARDIÃO DE MIMOSO

Para um espaço cultural tão simples e razoavelmente pequeno, todas essas justificativas ou desculpas não convenceriam o Marechal Rondon, caso estivesse vivo. Não convenceu nem mesmo a professora aposentada, Jovercina Taques, 67 anos. Ela diz que não confia mais em nada. “Falou que é político, é só promessa. Conversa fiada isso ai”, desabafou, mostrando com a boca em bico o memorial logo adiante.

 

.

Na entrada do vilarejo, uma estátua do Marechal Rondon permanece impávida, como se o herói estivesse vivo. Com a coragem, ousadia e espírito empreendedor que ele tinha à sua época, certamente hoje Rondon estaria concluindo o Memorial com as próprias mãos.

DESPREZO À HISTÓRIA

O Memorial Rondon é apenas uma singela homenagem diante do gigantismo do que foi o Marechal Rondon. Em todo Mato Grosso não há um só cidadão que se iguale ao mimoseano que conquistou o Mundo com seus feitos. Em 1890 tornou-se engenheiro-militar e bacharel em Matemática e Ciências Físicas e Naturais na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, e na Escola Superior de Guerra. O primeiro relatório da Comissão Rondon, escrito integralmente pelo próprio Marechal, revela um homem à frente de seu tempo, com espírito pátrio que deveria servir de exemplo a políticos, principalmente. Depois de alcançar a mais alta patente do exército brasileiro, seu nome batizou o Estado de Rondônia e diversas cidades brasileiras. Teve o privilégio de ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz por três vezes (por Albert Einstein em 1925, novamente em 1953 pelo escritor francês Henri Charles Badet, autor do livro “Rondon - Charmeur d’Indiens”, e a terceira em 1957, pelo Explorer’s Club de Nova Iorque). Recebeu inúmeros outros prêmios e homenagens.

O menino Candido Mariano da Silva Rondon nasceu anônimo no final do século 19 e morreu como herói. Foi reconhecido como poucos brasileiros. Desde a celebração do sesquicentenário de seu nascimento, os descendentes de Rondon e os mimoseanos continuam esperando que o seu morador mais ilustre possa ser eternizado em um local com mais respeito à sua história. “Chega de promessa, né, moço”, finalizou dona Jovercina Taques.
 

  

 


Comentar           Imprimir


Busca



Enquete

Você defende que a ferrovia passe por Cuiabá?

Sim, pois incrementará a economia.
Não, pois não temos produtos em volume necessários.
Indiferente
Outro problema como o VLT
  Resultado
Facebook Twitter Google+ RSS
Logo_azado

Plantão News.com.br - 2009 Todos os Direitos Reservados

email:redacao@plantaonews.com.br / Fone: (65) 8431-3114