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Justiça e Direito
Domingo, 24 de março de 2019, 09h11

Círculos de Paz promovem mudanças em reeducandas de Tangará da Serra


Mariana* está presa na Cadeia Pública Feminina de Tangará da Serra (239 quilômetros a médio-norte de Cuiabá), tem 32 anos, grande força de vontade, espírito desbravador e um enorme potencial de liderança que lhe dá condições de viver fora da prisão sem voltar a delinquir. Nascida e criada em uma casa de prostituição, ela passou por várias experiências traumáticas e, infelizmente, ainda não consegue enxergar um futuro promissor, tanto que não se sente preparada para sair da cadeia, pois tem medo de reincidir.

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De acordo com a diretora da Cadeia, Josmara Tiossy Ribeiro Lourenço, a reeducanda já começou o processo de conhecimento de seu lugar no mundo, mas ainda precisa ser trabalhada mais um pouco. Por conta disso, ela foi uma das selecionadas para participar do Círculo de Construção de Paz, realizado pelo Poder Judiciário mato-grossense, nesta semana, dentro da instituição, com o intuito de acolher o agressor e fazer com que ele entenda, entre outras coisas, a complexidade e as consequências de seus atos.



Josmara explica que assim como Mariana, tem outras internas na mesma situação. “A unidade tem uma disciplina exemplar, mesmo assim, depois do círculo de paz, eu percebo que as participantes conseguem se soltar um pouco mais. Elas ficam mais conscientes sobre a ressocialização e sobre o trabalho feito dentro da unidade. O círculo de paz atua diretamente na causa, no que leva essa mulher a delinquir, quais são os seus erros, qual a percepção de vida de cada uma delas. Todos nós precisamos entender que temos que melhorar e o que é necessário mudar e é aí que o Judiciário está nos ajudando”, explica a diretora.

Ela ressalta ainda que depois que Mariana passou pelo círculo ela começou a perceber sentimentos e pensamentos que lhe faziam mal, mas que ela mesma não tinha noção que existiam. “Ela começou a se questionar, a se conhecer melhor internamente. Então percebeu que havia bagagens que ela carrega, mas que não são suas. Não é necessário transportar tanto peso e, por isso, ela pode deixar esses sentimentos, lembranças e experiências para traz.”

Além da Cadeia Pública feminina, entre os dias 19 e 21 de março, a ação foi realizada também com os profissionais do Centro de Referência de Assistência Social, pertencentes à rede de apoio à criança e adolescentes, com os servidores da Escola Estadual Manoel Marinheiro e Ramon Sanches Marques e também com recuperandos do Centro de Detenção Provisória local.

De acordo com a juíza da Primeira Vara Criminal de Tangará da Serra, Cristiane Padim, a aplicação do Círculo de Paz faz com que o Poder Judiciário caminhe em direção a uma justiça criminal voltada para a responsabilização e não apenas à culpabilização com imposição de pena. Com isso, é construída uma justiça em que tanto a vítima quanto o agressor são acolhidos e o resultado é percebido diretamente na ressocialização dos recuperandos.


“Estamos avançando com a realização de novos círculos, realizados com os servidores do sistema prisional, para aumentar a humanização e a pacificação nas relações sociais. Também estamos inserindo recuperandas e recuperandos das unidades prisionais a fim da conscientização acerca da responsabilização por suas condutas e do poder de novas escolhas no futuro, com vistas à reparação dos danos causados”, explica Cristine.

Os círculos de paz integram o programa Justiça Restaurativa implantado no Poder Judiciário com o intuito de mudar a percepção da justiça criminal tradicional, por meio da sensibilidade e escuta dos ofensores das vítimas. O trabalho consiste no encontro entre a vítima, as pessoas que a apoiam, o ofensor, juntamente com as pessoas que vão ajudá-lo na reparação dos danos. Quem faz esse trabalho é o mediador ou conciliador credenciado para trabalhar no Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania dos Juizados Especiais (Cejusc) da comarca.

A juíza Leilamar Aparecida Rodrigues, responsável pelo Cejusc e pela Vara da Infância e Juventude de Tangará, explica que durante a aplicação dos círculos de paz também foram treinados esses facilitadores que irão trabalhar na aplicação da metodologia. Ela ressalta ainda que em abril de 2019 será realizada a terceira etapa de treinamento de facilitadores e aplicação de círculos de paz.

“Os círculos têm uma capacidade de curar e de melhorar o equilíbrio emocional das pessoas. Quem participa da ação começa a avaliar melhor o trato com o próximo e entender os relacionamentos. Por isso é tão importante fazer essa ação também nas escolas. Para trabalhar na sala de aula com crianças e adolescentes é necessário que conheçam ferramentas que melhorem os conflitos vivenciados por esses jovens”, conclui a magistrada.

Os círculos tiveram o apoio e acompanhamento das orientadoras do Núcleo Gestor de Justiça Restaurativa (Nugjur) do Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso (TJMT), Ana Teresa Pereira Luz e Roseli Barreto Coelho Saldanha, além do gestor do Cejusc, Nivaldo Lima. 


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