A Feira de Economia Criativa e Solidária foi um dos espaços mais potentes da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, em Aracruz (ES), realizada pelo Ministério da Cultura (MinC). Reunindo Pontos de Cultura, povos indígenas, mestres da cultura popular, coletivos comunitários e empreendedores da cultura viva de diferentes territórios ao lono de toda a semana, o espaço transformou saberes ancestrais, sustentabilidade e economia solidária em geração de renda, fortalecimento cultural, difusão e preservação das tradições.
Artesanato, biojoias, culinária ancestral, ervas, grafismos indígenas e produtos naturais compõem um retrato da diversidade cultural brasileira, enquanto impulsiona debates sobre justiça climática, proteção dos territórios e valorização dos saberes tradicionais, temas centrais desta edição.
Entre os expositores está a artesã indígena Marilda Tupixo, liderança Guarani da Aldeia Boa Esperança, em Aracruz (ES). Coordenadora da Comissão Guarani Europá e integrante de organizações indígenas como a Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), ela apresenta ao público biojoias produzidas a partir de sementes, madeira e elementos tradicionais da cultura indígena. “Hoje eu estou aqui vendendo as artes da cultura indígena. Nós fazemos biojoias com sementes da mata, tratadas manualmente. Tudo é feito com muito cuidado e respeito à natureza”, explicou.
No estande, Marilda também mostra com orgulho, acessórios, maracás e instrumentos utilizados em rituais espirituais nas casas de reza. Segundo ela, cada objeto carrega um significado que remete às tradições dos povos originários. “Aqui nós temos o maracá, que é um instrumento espiritual que usamos dentro da casa de reza. Temos também o petynguá, o cachimbo tradicional utilizado nas cerimônias. E o pau de chuva, que usamos nos rezos quando o tempo está muito seco, para pedir chuva e molhar a terra”, contou.
Mulheres marajoaras do pracaxi e do vinho de açaí
Diretamente de Afuá, no arquipélago do Marajó (PA), a representante do Coletivo Mamorana, Nara Brito apresentou ao público da Teia produtos artesanais, bioeconomia amazônica e saberes tradicionais produzidos por mulheres ribeirinhas do território. Integrante do coletivo, certificado pelo MinC como Ponto de Cultura, Nara contou que o grupo reúne 48 mulheres que atuam em diferentes segmentos da economia criativa, como crochê, costura, biojoias, extração de óleos naturais, estampas artesanais e produção de alimentos típicos.

- Foto: Ascom MinC
“Fazemos crochê, costura, estampas naturais, extração de óleos de andiroba, pracaxi e copaíba. Também trouxemos um pouco da nossa arte em madeira que retratam o nosso cotidiano”, explicou.
Entre os produtos levados à Teia estava o tradicional vinho de açaí produzido pelo coletivo, que rapidamente se tornou um dos destaques da feira. Outro destaque apresentado foi o óleo de pracaxi, produto tradicional da Amazônia utilizado para fins medicinais e cosméticos.
“O pracaxi é uma amêndoa nativa da Amazônia. O óleo é cicatrizante, anti-inflamatório, pode ser usado na pele e no cabelo. Todo o processo é artesanal, respeitando o tempo de fermentação e de prensa”, explicou Nara.
Além da produção artesanal, o coletivo também atua no fortalecimento da autonomia financeira e emocional de mulheres em situação de vulnerabilidade social e violência. “A gente trabalha muito o empoderamento feminino e a inclusão social. Algumas mulheres já passaram por violência psicológica e física. Lá elas encontram uma forma de se renovar e se reencontrar. Às vezes não têm material, então nós ajudamos com o material e incentivamos para que possam empreender”, afirmou.
Nara também falou sobre a importância de levar para a Teia um pouco da identidade cultural de Afuá, município conhecido como “Veneza Marajoara” por suas características urbanas adaptadas às águas da região amazônica. Para ela, participar da Teia representa reconhecimento e visibilidade para territórios historicamente pouco vistos pelo restante do país. “O Brasil é muito grande e diverso. Precisa ter esse olhar mais territorial, mais sensível para as riquezas de cada lugar”, destacou.
A expositora também celebrou a certificação do coletivo como Ponto de Cultura, recebida durante a programação da Teia. “Receber o certificado é muito importante porque oficializa o que fazemos e tira nosso trabalho do anonimato. Valoriza ainda mais nossa cultura e nossa luta”, completou.
A proteção do grafismo na pele

- Foto: Julia Fuè
O indígena Guarani Nilson Wera Popygua apresenta ao público a tradição da pintura corporal feita com tintas naturais produzidas artesanalmente a partir de jenipapo ralado e urucum. Segundo o artista de Aracruz (ES), os grafismos fazem parte do cotidiano das comunidades indígenas e funcionam como uma forma de preservar conhecimentos ancestrais transmitidos entre gerações.
Conhecido entre os Guarani pelo significado de seu nome, Wera quer dizer relâmpago e trovão, Nilson carrega nos traços desenhados sobre a pele símbolos ligados à proteção espiritual, à sabedoria e à memória dos povos originários. Segundo ele, a tinta feita de jenipapo pode durar cerca de 15 dias na pele. “O meu trabalho aqui é mostrar a arte indígena de pintura corporal. Eu mesmo produzo minha própria tinta e trabalho com esses grafismos dentro da aldeia”, explicou.
Wera contou que começou a desenhar os grafismos a partir dos próprios sonhos, transformando imagens e símbolos em registros sobre o corpo. Para ele, cada traço possui um significado ligado à tradição e à espiritualidade do povo Guarani e cada pessoa que ele realiza o trabalho recebe um grafismo com significado intuitivo, que significa um presente espiritual.
“O nosso grafismo simboliza um marco histórico da nossa tradição e da nossa cultura. Cada povo tem um significado diferente. Para nós, representa proteção, sabedoria e a nossa identidade como povo originário dessa terra”, afirmou.
Livres, mães e bruxas
Diretamente de São Cristóvão (SE), a produtora cultural Daniele Pereira (31), apresentou na feira o trabalho do Ponto de Cultura surgido a partir de um grupo de mulheres ligado ao rap, ao Hip-Hop e à literatura de cordel, o coletivo Bruxas do Cangaço.

- Foto: Ascom MinC
Criado em 2017, o projeto nasceu como uma forma de fortalecer a presença feminina na cena cultural nordestina, misturando freestyle, repente, embolada e poesia popular. “O Ponto de Cultura começa como um grupo de rap e Hip-Hop. Como a gente é do interior, mistura freestyle com repente e embolada. Fazemos literatura de cordel, oficinas de rima e mostramos essa resistência do Nordeste a partir do olhar feminino”, contou Daniele.
Mãe de Luna Caiala, de três anos, nome que, segundo ela, significa “força da lua” e “força das águas”, Daniele transformou parte da própria trajetória em literatura. Na feira, ela apresentou as publicações da série Bruxas do Cangaço, composta por três edições que abordam cultura popular, maternidade e resistência feminina.
A primeira edição, Saga das Bruxas Cangaceiras, narra o início da caminhada cultural do coletivo e os desafios enfrentados pelas mulheres artistas periféricas. Já Luar de Mãe, Sol de Luta aborda o retorno das atividades culturais após a pandemia. O terceiro volume, História das Mães Bruxas, mergulha nas memórias familiares e nos ciclos enfrentados pelas mulheres ao longo das gerações.
“Eu trago um pouco da minha trajetória enquanto mãe e das matriarcas da minha família. Muitas coisas que aconteceram com a minha avó aconteceram com a minha mãe e comigo também. Então é importante romper esses ciclos”, explicou.
Atualmente, o coletivo atua com oficinas de escrita criativa, literatura de cordel, Hip-Hop, produção musical e gestão cultural em escolas, praças e espaços públicos. Mesmo certificado como Ponto de Cultura, o grupo ainda enfrenta dificuldades para manter as atividades de forma contínua. “A gente quer formar novas mulheres cordelistas e ocupar cada vez mais espaços. Quando mais mulheres chegam, mais a gente consegue avançar”, afirmou.
Teia Nacional
A 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura reúne agentes culturais, coletivos, mestres e mestras das culturas populares, povos tradicionais, representantes da sociedade civil e gestores públicos de todas as regiões do Brasil.
O evento é uma realização do Ministério da Cultura, do Governo do Estado do Espírito Santo, da Prefeitura de Aracruz e da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC), em parceria com o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), o Sesc, Unesco e o programa IberCultura Viva.
Fonte: Ministério da Cultura






















