Por mais de 20 anos, Roberto Lemos viveu entre longas viagens e a saudade de casa. No Dia dos Pais, ele relembra como a estrada também ajudou a construir a relação com o filho
O ano era 1993. Para Tânia Lemos e o filho, Fellipe, um dos momentos mais esperados do dia era a ligação que recebiam de Roberto Lemos. Caminhoneiro, ele passava boa parte do tempo na estrada para garantir o sustento da família. Em casa, mãe e filho se organizavam para conseguir ouvir a voz do marido e do pai e, assim, diminuir a saudade.
Antes de os celulares fazerem parte da rotina, Roberto usava um bipe, aparelho que recebia uma notificação indicando que alguém queria falar com ele. A partir dali, começava uma pequena operação familiar: Tânia e Fellipe corriam para o orelhão combinado e esperavam a ligação.
“A gente ficava pertinho do orelhão, esperando tocar para poder falar com o pai. O Fellipe falava, conversava e pedia lembranças de presente. Era um momento deles, um momento da família”, relembra Tânia.
Para Roberto, a distância fazia parte da profissão. Foram mais de 20 anos como caminhoneiro, em uma rotina que muitas vezes começava às 3h ou 4h da manhã. O retorno podia acontecer apenas no dia seguinte ou até dois dias depois, já tarde da noite.
Ainda assim, sempre que podia, encontrava um jeito de estar perto do filho.
Uma história que se repete pelo Brasil
A história de Roberto se repete, de diferentes formas, na vida de milhares de profissionais que passam dias longe de casa para manter o transporte de cargas em movimento e garantir que produtos cheguem a diferentes regiões do país.
Dados do Painel de Informações da Superintendência de Transporte Rodoviário e Multimodal de Cargas (SUROC), da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), mostram a dimensão dessa atividade: são mais de 1 milhão de motoristas atuando no transporte rodoviário de cargas no Brasil.
Todos os dias, caminhoneiros percorrem longas distâncias levando alimentos, roupas, medicamentos, materiais de construção e tantos outros produtos essenciais à rotina dos brasileiros. Enquanto seguem viagem, quase sempre há alguém esperando o retorno para casa.
A boleia era lugar de pai e filho
Nos feriados, fins de semana e, principalmente, durante as férias escolares, Roberto levava Fellipe para viajar com ele. O caminhão, antes apenas parte da rotina de trabalho, passava a ser cenário de memórias que os dois guardam até hoje.
“Eu preparava uma caminha dentro da boleia do caminhão para ele”, relembra Roberto.
Fellipe acompanhava o pai nas viagens e conhecia de perto a profissão que sustentava a família. Foi também ao lado de Roberto que Fellipe recebeu as primeiras orientações para dirigir.
Na estrada, pai e filho dividiam mais do que quilômetros. Compartilhavam conversas, histórias e o cotidiano das viagens. Para Roberto, era uma maneira de manter o filho por perto em uma profissão marcada por longos períodos longe de casa.
Mais do que uma parada: um lugar para descansar
A experiência de Roberto também guarda lembranças das dificuldades enfrentadas por quem vive na estrada. Durante as viagens, nem sempre havia locais adequados para descansar, tomar banho ou simplesmente parar com segurança.
“A gente chegava nos lugares de apoio e, às vezes, não tinha onde descansar, ou onde tomar banho, um lugar em que a gente se sentia seguro”, conta.
Hoje, os Pontos de Parada e Descanso (PPDs) integram as iniciativas voltadas à melhoria das condições de trabalho dos caminhoneiros nas rodovias federais concedidas. Regulamentados pela ANTT, esses espaços oferecem estrutura de repouso e apoio aos motoristas, com itens como estacionamento, refeitórios, banheiros com chuveiros, lavanderias e áreas de descanso.
Atualmente, oito PPDs estão entregues e em operação em rodovias federais concedidas: na BR-101/SC, em Palhoça; na BR-153/GO, em Uruaçu; na BR-153/TO, em Talismã; na BR-116/RJ, em Seropédica e Itatiaia; na BR-116/MG, em Caratinga; na BR-116/SP, em Pindamonhangaba; e na BR-163/PA, em Novo Progresso.
Outros 23 PPDs estão planejados para os próximos dois anos: cinco em 2026 e 18 em 2027. As unidades têm, em média, 20 mil metros quadrados e funcionam 24 horas por dia, todos os dias, sem custo para o motorista.
Anos depois, a parceria continua
Neste domingo (9), em que se celebra o Dia dos Pais, Roberto olha para os anos que passou na estrada e se lembra, sobretudo, dos momentos que conseguiu dividir com o filho. As ligações no orelhão, as viagens nas férias e a pequena cama improvisada na boleia permanecem entre as memórias construídas pelos dois.
“Tudo que passei foi um aprendizado, foi um crescimento. Foi um apego que tive com o Fellipe, porque construímos uma aliança muito grande, muito forte”, conta Roberto.
Os anos passaram, mas a parceria continuou. Hoje, os dois trabalham lado a lado: Roberto está à frente de uma loja agropecuária, enquanto Fellipe é dono de uma loja de materiais de construção.
As longas viagens ficaram para trás. Mas, para Fellipe, algumas das lembranças mais importantes da relação com o pai nasceram justamente ali: na estrada, dentro de um caminhão, entre um destino e outro.
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