Ponto de Cultura no município de Alegre fortalece tradição afro-brasileira no Espírito Santo

Foto: Luan Volpato

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Quando Rosimar Domingos, conhecida como Zimá, decidiu inscrever o Grupo Caxambu do Horizonte no Cadastro Nacional de Pontos e Pontões de Cultura do Ministério da Cultura (MinC), em 2024, o objetivo era dar continuidade ao legado do Mestre Pai Antônio (in memoriam), seu tio-avô e referência fundamental para a tradição na comunidade.

Naquele momento, o grupo já reunia moradores em torno das ladainhas de Santo Antônio aprendidas pelo mestre com sua mãe e preservadas como herança familiar. Marcadas pela devoção e pela força espiritual, as celebrações passaram, pouco a pouco, a se consolidar como espaço de encontro, fé e expressão cultural.

Foi nesse ambiente que surgiram os primeiros batuques e cantos que dariam forma ao Caxambu do Horizonte, manifestação que reúne música, dança e espiritualidade, reverenciando os ancestrais e fortalecendo os laços comunitários. Agora, o Grupo Caxambu do Horizonte participará como Ponto de Cultura da 6ª Teia Nacional, a primeira edição a ser realizada no estado do Espírito Santo, entre os dias 19 e 24 de maio de 2026.

“No Caxambu, encontramos, nos sons dos tambores e nas rodas das saias, não apenas uma atividade cultural, mas um propósito de vida. É um lugar onde a gente aprende quem é, de onde vem e para onde quer ir”, destaca a coordenadora do ponto, Zimá Domingos.

Baseada na oralidade e na vivência comunitária, a prática se consolidou como espaço de fortalecimento dos vínculos familiares, de reverência aos ancestrais e de afirmação da identidade cultural afro-brasileira no território.

“Quando o Mestre Pai Antônio me passou esse compromisso do Caxambu, em 2011, fui atrás de reunir os parentes para fortalecer a união da família e manter a tradição”, conta José Jorge, mestre dos tambores, voluntário do grupo e sobrinho-neto do homenageado.

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Foto: Luan Volpato

Espaço de transformação

Mais do que uma manifestação cultural, o Caxambu do Horizonte impacta diretamente a vida dos integrantes e da comunidade. Cada canto entoado carrega ensinamentos transmitidos de geração em geração.

Entre as principais ações do grupo está o projeto ‘Situa Negro’, realizado desde 2017, que promove o debate sobre questões raciais e desenvolve atividades voltadas ao enfrentamento do racismo e à valorização da cultura negra, em diálogo com escolas, pesquisadores e a comunidade.

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“Hoje o Situa Negro é uma referência aqui na nossa cidade. Era um encontro pequeno e hoje virou uma grande celebração. Neste ano vamos para a 10ª edição, com palestras e a participação de empreendedores negros e mulheres com seus artesanatos”, afirma José Jorge.

Outra frente de atuação é a formação de crianças e jovens por meio do projeto ‘Compartilhando Saberes’, que promove a transmissão das tradições do Caxambu pela oralidade, pelo fazer coletivo e pelas práticas culturais, como a dança.

A iniciativa aproxima gerações como a de José Jorge e sua filha Giovana, e fortalece a continuidade de uma expressão cultural que permanece viva dentro das famílias.

“Estou no Caxambu há muito tempo e nunca tinha tido uma oportunidade assim. Participar com os jovens do Caxambu do Horizonte, com a comunidade e com a minha filha, que é caxambuzeira desde que estava na barriga da mãe, foi um aprendizado enorme. Ela é uma dançarina de mão cheia e não é só orgulho de pai, não. É de encher os olhos d’água ver a tradição seguindo com a gente”, conta.

Hoje, o grupo também se consolidou como referência na salvaguarda da memória e da tradição oral na região. Ao longo do ano, cerca de 500 pessoas participam da tradicional festa de Santo Antônio, além daquelas envolvidas nas rodas e nas atividades formativas permanentes.

Para quem vive na comunidade, o impacto vai além das apresentações culturais. O espaço se tornou um ponto de encontro, aprendizado e troca de saberes. “No Caxambu do Horizonte, o maior impacto não está nos palcos. Está na pele, na alma e na história de cada integrante”, resume Zimá Domingos.

Ao preservar saberes ancestrais, formar novas gerações e fortalecer vínculos comunitários, o Ponto de Cultura Caxambu do Horizonte reafirma o papel da cultura como ferramenta de transformação social, mostrando que tradição também é construção de futuro.

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Rede Nacional de Cultura Viva

O Espírito Santo conta com 363 pontos de cultura, distribuídos em 37 dos 78 municípios do estado. Atualmente, o Brasil conta com mais de 15,5 mil organizações reconhecidas como pontos de cultura, favorecendo o acesso ao fomento cultural.

O Cadastro Nacional de Pontos e Pontões de Cultura é o principal instrumento da Política Nacional de Cultura Viva (PNCV), que há mais de duas décadas fortalece iniciativas culturais comunitárias e amplia o acesso a recursos públicos para ações culturais realizadas nos territórios.

Coordenado pelo Ministério da Cultura, o Cadastro Nacional de Pontos e Pontões de Cultura alcançou organizações reconhecidas em todo o país, presentes nos 26 estados e no Distrito Federal. Entre janeiro de 2023 e março de 2026, foram emitidos mais de 10 mil certificados, um crescimento de 246,5% em relação aos 4.329 certificados concedidos entre 2004 e 2023.

Espalhados por todo o território nacional, os Pontos de Cultura realizam atividades que vão de oficinas artísticas e formação cultural à preservação de festas populares, pesquisas sobre patrimônio cultural e ações de valorização das identidades locais.

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Foto: MinC

Teia Nacional

Entre os dias 19 a 24 de maio de 2026, será realizada a 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, maior encontro da rede Cultura Viva no país. A edição acontece em Aracruz (ES), marcando a retomada do evento após 12 anos e, pela primeira vez, em território indígena. Com o tema “Pontos de Cultura pela Justiça Climática”, a Teia reunirá agentes culturais, mestres e mestras das culturas populares, povos e comunidades tradicionais, gestores públicos e representantes da sociedade civil de todas as regiões do Brasil.

O evento é uma realização do Ministério da Cultura, do Governo do Estado do Espírito Santo, da Prefeitura de Aracruz e da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC), em parceria com o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), o Sesc, a TVE, Unesco e o programa IberCultura Viva.

Fonte: Ministério da Cultura

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