Cultura, memória e formação: visitas técnicas revelam a diversidade dos projetos financiados pela Lei Rouanet em Caxias do Sul

Foto: Victor Vec/MinC

publicidade

Entre antigas vilas operárias, oficinas de musicalização, memórias comunitárias e rodas de hip hop, o último dia da itinerância da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), em Caxias do Sul, foi dedicado a um exercício fundamental para a política cultural: ver de perto como os projetos incentivados pela Lei Rouanet acontecem nos territórios.

As visitas técnicas, realizadas ao longo da sexta-feira, levaram comissários, dirigentes do Ministério da Cultura e representantes da sociedade civil a espaços culturais que traduzem, na prática, a diversidade de iniciativas apoiadas pelo mecanismo de incentivo fiscal, da preservação da memória industrial à formação musical de crianças e jovens, passando por patrimônio imaterial, audiovisual e cultura urbana. O circuito funcionou como uma imersão nos impactos sociais, educativos e culturais construídos a partir do incentivo à cultura.

“Encerrar a itinerância visitando os projetos é uma forma de aproximar ainda mais a política pública da realidade dos territórios. Quando os comissários conhecem de perto as iniciativas, conversam com as comunidades e entendem os impactos dessas ações, a Lei Rouanet deixa de ser apenas um mecanismo técnico e passa a ser percebida na sua dimensão humana, social e cultural”, afirma Erica Freddi, coordenadora-geral de Articulação e Gestão do Pronac na Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (Sefic), que representou o secretário Thiago Rocha na agenda de visitas técnicas.

“A itinerância também fortalece esse processo de nacionalização da cultura, porque permite que diferentes regiões apresentem suas demandas, seus patrimônios e suas formas próprias de produção cultural. Isso contribui para uma política cada vez mais democrática, diversa e conectada com o país real”, completa.

Patrimônio, memória e território em Galópolis

A primeira parada aconteceu no Instituto Hércules Galló, referência na preservação da memória industrial de Galópolis, bairro histórico de Caxias do Sul marcado pela imigração italiana e pela formação operária da região. O espaço desenvolve, desde 2017, planos anuais de atividades financiados via Lei Rouanet e atua na preservação documental, patrimonial e educativa ligada à história da comunidade.

Para o arquiteto e diretor do instituto, Renato Solio, a visita da CNIC representa uma aproximação importante entre quem formula a política pública e quem executa os projetos no território. “É muito importante que o próprio Ministério conheça os processos e os projetos financiados pela Lei Rouanet. Isso ajuda a mostrar que é possível fazer política cultural de forma séria, comprometida e com impacto real na preservação da memória e da história”.

Leia Também:  MME alinha política energética à realidade do campo e impulsiona a produção agropecuária

Segundo ele, o incentivo viabiliza não apenas a manutenção do patrimônio, mas também ações educativas voltadas às novas gerações. “Quando a gente preserva a memória, também prepara o futuro. Esses projetos ajudam a comunidade a conhecer o próprio passado e fortalecer sua identidade cultural”.

A programação seguiu pelas ruas de Galópolis com atividades do Inventário Participativo de Galópolis, iniciativa certificada como ponto de memória e ponto de cultura, que atua no mapeamento e valorização dos patrimônios culturais locais.

Recebidos pela professora e coordenadora Geovana Erlo, os visitantes percorreram espaços históricos da antiga vila operária enquanto ouviam relatos sobre imigração, trabalho industrial, memória comunitária e patrimônio cultural. “Nosso trabalho parte da museologia social e das memórias dos trabalhadores daqui. Tudo o que está sendo construído nesse espaço acontece de forma coletiva, participativa e colaborativa”, explicou.

O inventário começou em 2022 com menos de 20 bens catalogados. Hoje, já reúne 247 patrimônios inventariados de forma participativa pela comunidade. Ao longo da visita, histórias da formação de Galópolis ajudaram a contextualizar o papel da cultura na construção da cidade, desde a chegada de ex-operários italianos no fim do século XIX até a criação de cooperativas, espaços de convivência e equipamentos culturais ligados à antiga dinâmica industrial.

A memória afetiva também apareceu nos detalhes. Entre eles, a tradição das confeiteiras de Galópolis, apresentada durante uma demonstração de produção artesanal dos tradicionais “canudinhos”, receita passada entre gerações e resgatada pelo inventário participativo.

Formação musical e continuidade

Outro destaque da programação foi a visita ao Instituto Elisabetha Randon e aos projetos conduzidos pela musicista e produtora cultural Claudia Bressan, responsável por iniciativas de formação musical desenvolvidas há quase duas décadas com apoio da Lei Rouanet.

Durante a apresentação, Claudia detalhou a trajetória do projeto Mais Música, que reúne diferentes ações de musicalização infantil, iniciação musical e aprendizagem de instrumentos para crianças e jovens da região. “Desde 2008, já executamos 22 projetos via Lei Rouanet. Ao longo desse período, mais de 6 mil alunos passaram pelas atividades”, destacou.

Ela também chamou atenção para a importância da continuidade das políticas de incentivo na consolidação de projetos culturais de longo prazo. “Quando o projeto tem continuidade, ele cria vínculo com a comunidade, forma público, forma estudantes e transforma trajetórias. A cultura precisa desse tempo de maturação.”

Claudia ressaltou ainda a importância da autonomia dos próprios proponentes na gestão dos projetos culturais. “Eu sempre incentivo as pessoas a aprenderem a elaborar, executar e prestar contas dos seus próprios projetos. Isso fortalece os produtores culturais e democratiza o acesso ao mecanismo.”

Leia Também:  Auditório da Controladoria-Geral da União recebe nome de Anadyr de Mendonça

Cultura urbana e transformação social

A programação também incluiu visita ao Memorial do Transporte, projeto que busca preservar a história do setor de transportes na Serra Gaúcha e transformar o espaço em um futuro ponto turístico e cultural da região. A iniciativa reúne acervo histórico, documentos e veículos que ajudam a contar parte do desenvolvimento econômico e social de Caxias do Sul, reforçando a importância da preservação da memória ligada ao trabalho e à mobilidade no estado.

A última visita técnica do dia levou a comitiva até a Fluência Casa Hip Hop, espaço voltado à formação continuada de jovens e adultos em linguagens da cultura urbana, com oficinas de grafite, dança, poesia e breaking. Idealizada pelo arte-educador e dançarino Geovani de Gregori, conhecido como Sor Ge, a iniciativa atua como ponto de encontro e formação artística para a juventude da periferia. 

Ao apresentar o espaço, Sor Ge destacou o papel do hip hop como ferramenta de pertencimento e transformação social. “A cultura salva vidas porque ela faz as pessoas entenderem que pertencem a algum lugar. Quando um jovem encontra espaço para criar, dançar, escrever ou se expressar, ele começa também a enxergar possibilidades para a própria vida”, afirmou.

Segundo ele, iniciativas de formação cultural ajudam a construir redes de apoio e autonomia para a juventude. “O hip hop sempre foi uma ferramenta de educação, de resistência e de comunidade. O que a gente faz aqui é transformar arte em oportunidade.”

Aproximação entre política pública e território

As visitas técnicas encerraram a programação da CNIC itinerante em Caxias do Sul reforçando um dos principais objetivos do formato itinerante retomado pelo Ministério da Cultura em 2023: aproximar conselheiros, gestores e sociedade civil das realidades culturais de diferentes regiões do país.

Ao longo de três dias, a programação reuniu plenárias, encontros setoriais, palestras, oficinas e visitas a projetos culturais locais, ampliando o diálogo sobre acesso à Lei Rouanet, democratização do incentivo e fortalecimento das redes culturais nos territórios. As edições itinerantes da CNIC acontecem de forma bimestral. A previsão do Ministério da Cultura é que a próxima edição seja realizada na região Centro-Oeste. 

Fonte: Ministério da Cultura

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade