Familiares de vítimas da ditadura militar recebem certidões de óbito retificadas em Pernambuco

(Foto: Raul Lansky/MDHC)

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Foi realizada nesta sexta-feira (22), em Recife (PE), no auditório “Fernando Santa Cruz”, na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a 6ª Solenidade de Entrega das Certidões de Óbito retificadas de pessoas mortas e desaparecidas por perseguição política durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985. A cerimônia mobilizou familiares, amigos e autoridades locais e nacionais em defesa do direito à verdade sobre as mortes causadas por agentes do Estado.

A cerimônia integrou o cronograma de atividades da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), atendendo a uma demanda histórica de familiares de vítimas da ditadura militar. O ato também está em conformidade com as Resoluções n.º 7, da Comissão Nacional da Verdade (CNV), e n.º 601/2024, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que determinou, em dezembro de 2024, a retificação das certidões de óbito de 434 desaparecidos políticos em todo o país.

(Foto: Raul Lansky/MDHC)
(Foto: Raul Lansky/MDHC)

A ação reforça o compromisso do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) com a reparação histórica, a preservação da memória e a promoção do direito à verdade sobre as violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura militar brasileira.

Na abertura do evento, uma das canções interpretadas pelos musicistas Jorge Simas e João Paulo Albertim foi “O Bêbado e o Equilibrista”, consagrada na voz de Elis Regina. A música tornou-se um dos principais símbolos da Campanha pela Anistia no Brasil.

Em sua fala, a secretária-executiva do MDHC, Caroline Reis, destacou a importância do momento simbólico e histórico: “É importante reconhecer esses momentos em nome do Estado brasileiro, admitir os erros cometidos e reparar minimamente esses danos. Tudo o que é feito aqui ainda é muito pequeno diante da perda que vocês sofreram, assim como todos os familiares presentes. Nada trará seus entes queridos de volta, mas é fundamental promovermos esses momentos de reparação para garantir a vocês um mínimo de dignidade nesta data”.

De acordo com Caroline, o evento também reforça a importância da democracia: “Não há como promover e defender os direitos humanos sem a existência de regimes democráticos. A democracia é essencial para a promoção e a defesa dos direitos humanos”.

“É por isso que precisamos seguir firmes na defesa da democracia, no resgate da memória deste país e na conscientização da sociedade sobre a história de cada desaparecido político e de cada pessoa morta durante o período ditatorial, para que nunca se esqueça o quanto os períodos autoritários são difíceis e perigosos”, finalizou.

Memória

Ao relembrar o percurso até o momento de entrega das certidões, Eugênia Augusta Gonzaga, presidente da CEMDP, expressou o desejo de que o documento represente, de fato, uma medida efetiva de reparação: “Esse papel não substitui as buscas pelos corpos, que precisam continuar sendo realizadas, nem as medidas de justiça que o país ainda precisa buscar, mas representa, ao menos, um passo muito importante. Em nome de todos da comissão e das autoridades presentes, quero que recebam, com esse documento, nossa solidariedade e o compromisso de seguirmos nessa luta e nesse trabalho por justiça, memória, verdade e reparação”.

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Jonas José de Albuquerque Barros era membro do Grêmio Estudantil do Ginásio Pernambucano e da Associação Recifense dos Estudantes Secundaristas (ARES) e, com apenas 17 anos, foi assassinado pela ditadura militar, tornando-se a primeira vítima do regime no estado. Seu irmão, Augusto Albuquerque, recebeu a certidão ao lado de outros dois irmãos e relembrou parte do sofrimento enfrentado pela família após a perda. Ele contou que, à época, seu pai tentou tirar a própria vida diante da dor causada pela morte do filho: “Eu tinha dezesseis anos e ele, dezessete. Éramos secundaristas do Colégio Estadual de Pernambuco, de onde saíram grandes figuras de diversas áreas. Naquele momento, eu me tornei o responsável pela família porque meu pai, no dia do acontecimento, tentou o suicídio. A nossa sorte foi que o revólver que ele tinha estava sem munições”.

(Foto: Raul Lansky/MDHC)
(Foto: Raul Lansky/MDHC)

Augusto defendeu ainda a preservação da memória sobre o período ditatorial e afirmou: “Não podemos, de maneira alguma, permitir que isso volte a acontecer, como alguns tentam fazer. O apelo que faço a todos é para que nunca mais deixemos isso ocorrer. Tortura nunca mais”.

Paula Teixeira, neta de João Pedro Teixeira e Elisabeth Teixeira, recebeu a certidão em nome do avô e prestou homenagem à trajetória de seus familiares. Ela relatou que seu pai desenvolveu depressão, crises de ansiedade e faleceu ainda jovem em decorrência dos impactos causados pela perda. “João Pedro foi assassinado por defender os necessitados e lutar por igualdade. Elisabeth, aos 101 anos, continua essa luta com o apoio da família. É sempre muito gratificante falar deste homem e desta mulher. João Pedro Teixeira foi morto porque defendia os menos favorecidos. Ele acreditava que poderíamos viver em um país mais igualitário. Sempre lutou por tudo aquilo em que acreditava e foi morto da pior forma possível. Hoje, minha querida avó está com 101 anos e, como prometeu que daria continuidade à luta, segue firme até hoje. E, junto dela, estamos nós: todos os netos, bisnetos e os filhos que continuam vivos”.

Amparo, esposa de Luiz José da Cunha, conhecido como Comandante Crioulo, um dos líderes da Ação Libertadora Nacional (ALN), movimento de resistência à ditadura militar brasileira, participou da solenidade e convidou o chefe da Assessoria de Defesa da Democracia, Memória e Verdade (ADMV) do MDHC, Hamilton Pereira — também ex-preso político e companheiro de militância de Luiz — para declamar o poema que escreveu em homenagem ao Comandante Crioulo: “Há no sangue do povo uma oficina de reservas infinitas, que se reconstrói a cada minuto. Você, companheiro, encontre os homens que labutam na forja e diga a eles por mim: não malhem na bigorna sem ternura. Ao companheiro Luiz José da Cunha, assassinado em julho de 1973”, declamou Hamilton, no poema intitulado Oficina.

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A irmã de Antônio Henrique Pereira Neto, Terezinha Silva, ressaltou que, mesmo após tantos anos, a família, composta por 12 irmãos, ainda sofre os impactos do período ditatorial: “A nossa preocupação continua. Há muitas pessoas investindo recursos para influenciar a opinião pública, inclusive de jovens que não sabem o que foi uma ditadura. Muitas vezes, vendem a ideia de facilidades, como se fosse algo positivo, quando sabemos que não é. Por isso, precisamos divulgar, principalmente para a juventude, que ditadura não é uma coisa boa”.

Reparação

Segundo a presidente da CEMDP, quando a resolução foi publicada, em 2024, a expectativa era encaminhar as solicitações aos cartórios e, em até 90 dias, receber os documentos retificados para a realização de uma grande cerimônia de entrega: “Mas não foi assim. Descobrimos que muitas certidões, por exemplo, não tinham sequer a nacionalidade da pessoa descrita no documento, nem o estado civil. Eram certidões praticamente de desaparecimento, porque continham, às vezes, apenas o nome e a declaração da morte nos termos da lei. Então, resolvemos refazer tudo e preencher cada documento com todas as informações que conseguimos localizar”.

O secretário-geral da OAB, Cláudio Ferreira, presidiu a cerimônia e ressaltou o simbolismo do ato, inclusive pelo local escolhido para o evento: “A realização da cerimônia aqui na OAB, a Casa da Cidadania, carrega uma simbologia muito forte ao demonstrar que é a ação da sociedade civil organizada que permite o avanço da luta por memória e verdade”.

Na cerimônia realizada em Pernambuco, foram entregues as certidões de:

1.⁠ ⁠Antônio Henrique Pereira Neto
2.⁠ ⁠Eduardo Collier Filho
3.⁠ ⁠Emmanuel Bezerra
4.⁠ ⁠Ezequias Bezerra da Rocha
5.⁠ ⁠Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira
6.⁠ ⁠Gastone Lúcia de Carvalho Beltrão
7.⁠ ⁠Ivan Rocha Aguiar
8.⁠ ⁠Jarbas Pereira Marques
9.⁠ ⁠Jayme Amorim de Miranda
10.⁠ ⁠João Lucas Alves
11.⁠ ⁠João Mendes Araújo
12.⁠ ⁠João Pedro Teixeira
13.⁠ ⁠Jonas José de Albuquerque Barros
14.⁠ ⁠José Bartolomeu Rodrigues de Souza
15.⁠ ⁠José Manoel da Silva
16.⁠ ⁠Luiz Alberto Andrade de Sá e Benevides
17.⁠ ⁠Luiz Almeida Araújo
18.⁠ ⁠Luiz José da Cunha
19.⁠ ⁠Manoel Lisbôa de Moura
20.⁠ ⁠Odijas Carvalho de Souza
21.⁠ ⁠Ramires Maranhão do Valle
22.⁠ ⁠Ranúsia Alves Rodrigues
23.⁠ ⁠Ruy Frasão Soares
24.⁠ ⁠Soledad Barrett Viedma
25.⁠ ⁠Umberto de Albuquerque Câmara Neto

Veja mais fotos da agenda no Flickr do MDHC.

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Texto: R.M.

Edição: G.O.

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Fonte: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania

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