Fazer filmes, séries e produções audiovisuais brasileiras chegarem ao público em um país marcado por desigualdades de acesso e concentração das salas de cinema foi a questão central da mesa “Audiovisual em toda parte: promoção, formação de público e direito de acesso à produção brasileira”, realizada nesta quinta-feira (28), no MinC Conecta, durante o Rio2C 2026.
O debate reuniu a diretora de Preservação e Difusão Audiovisual do Ministério da Cultura (MinC) e coordenadora da plataforma Tela Brasil, Daniela Fernandes, o CEO e diretor do projeto CINE+, Paulo Feitosa, e a diretora-presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Antonia Pellegrino, com mediação do advogado e especialista em economia criativa Fábio Cesnik.
Em comum, os participantes defenderam que a ampliação do acesso ao audiovisual brasileiro depende de uma combinação entre políticas públicas, inovação tecnológica, novas janelas de exibição e formação de público, articulando salas de cinema, streaming, TV aberta e experiências itinerantes.
Formação de público e acesso ao cinema
Ao apresentar a experiência do CINE+, Paulo Feitosa destacou o desafio de levar cinema a municípios historicamente excluídos do circuito comercial de exibição. Hoje, as salas do projeto são implementadas por meio de um modelo de cooperação entre estados, municípios e incentivo fiscal, com financiamento composto por 75% de incentivos estaduais de ICMS e 25% via Lei Rouanet. O município oferece contrapartidas estruturais, enquanto o instituto responsável mantém a operação inicial, formação de equipes e programação.
Segundo Paulo, um dos maiores desafios não é apenas construir salas, mas garantir que elas sejam ocupadas. “O nosso grande desafio hoje é comunicação. Mesmo com todas as estratégias que a gente cria, a ocupação média das salas ainda é de 45%. Estamos falando de cinema gratuito. Então, a pergunta é: o que ainda está faltando? A informação”, afirmou.
Além das salas fixas, o projeto criou uma estratégia itinerante para alcançar distritos afastados e territórios com baixa mobilidade urbana. Chamado Cinemóvel, o modelo leva sessões gratuitas para comunidades utilizando tela inflável, cadeiras e exibição ao ar livre.
“Não adianta resolver só uma parte do problema. Muitas vezes a pessoa mora longe, não tem transporte para ir até a sala. Então levamos o cinema até os distritos e exibimos os mesmos filmes que estão na programação principal”, explicou.
Tela Brasil aposta em streaming público para formar público
Durante o painel, Daniela Fernandes detalhou aspectos da Tela Brasil, nova plataforma pública de streaming do governo federal voltada à difusão do audiovisual nacional. Segundo ela, a plataforma nasce com prioridade absoluta para o conteúdo brasileiro e para a formação de público, funcionando como instrumento complementar às salas comerciais e aos streamings privados e não como concorrente.
“A Tela Brasil foi pensada prioritariamente como uma política de formação de público para o cinema brasileiro. A gente escolhe aquilo que conhece, então disponibilizar filmes brasileiros nas diferentes janelas também fortalece o mercado”, afirmou a coordenadora.
O catálogo inicial contará com mais de 500 obras audiovisuais, das quais 139 pertencem ao acervo de instituições vinculadas ao Ministério da Cultura, como a Cinemateca Brasileira, a Fundação Nacional de Artes (Funarte), a Fundação Palmares e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv).
A plataforma também foi desenvolvida com foco em acessibilidade. Segundo Daniela, cerca de 70% do catálogo já contará com recursos acessíveis, enquanto o restante está em processo de adaptação. “A plataforma é totalmente acessível e a gente trabalha para que todo o conteúdo disponível esteja acessível até o final do ano”, explicou.
Outro diferencial destacado pela diretora foi a opção do Ministério por um modelo de licenciamento de conteúdo, em vez da incorporação automática de obras financiadas com recursos públicos. “A Tela Brasil vem como qualificadora de mercado, fortalecendo a circulação do audiovisual brasileiro e ajudando na formação de público”.
Daniela também anunciou a criação do novo Portal Filme Cultura, plataforma digital que reunirá informações sobre preservação, difusão audiovisual, streaming independente, acervos e acesso a ingressos de cinema brasileiro. Segundo ela, o portal vai agregar informações de cinematecas, arquivos audiovisuais, streamings independentes e plataformas de venda de ingressos, ajudando o público a localizar produções nacionais disponíveis.
TV pública e o futuro da difusão audiovisual
Antonia Pellegrino destacou o papel da TV Brasil como janela estratégica para a circulação da produção nacional, especialmente conteúdos infantis e obras realizadas fora do eixo Rio–São Paulo.
Hoje, a emissora mantém uma faixa diária dedicada à programação infantil, a TV Brasil Animada, com forte presença de produções brasileiras. “A TV Brasil tem um papel a cumprir tanto com as crianças quanto com os produtores que voltam sua criatividade para o conteúdo infantojuvenil. A regionalidade e a diversidade são pilares da comunicação pública”, afirmou.
Antonia também apresentou a discussão sobre a TV 3.0, próxima geração da televisão aberta no Brasil, que combinará radiodifusão e experiências digitais, permitindo integração entre TV, aplicativos e serviços públicos. Segundo ela, a EBC participa da construção da chamada Plataforma Comum, sistema que deverá integrar canais públicos e serviços governamentais em uma única interface. “Estamos vivendo uma transformação profunda da comunicação. O desafio da EBC daqui para frente é inovação e fortalecimento do campo público da comunicação”, afirmou.
Ao final do encontro, um consenso reuniu os participantes: ampliar o acesso ao audiovisual brasileiro exige mais do que produção que requer políticas permanentes de circulação, comunicação e formação de público, capazes de fazer com que filmes e séries nacionais cheguem, de fato, “onde o povo está”. A programação durante o terceiro dia segue com uma agenda ampla sobre valor da cultura, uso do patrocínio em projetos culturais, acessibilidade no cinema e mais. Confira na íntegra aqui.
Fonte: Ministério da Cultura
























