Complexo Carro de Boi reabre em Feira de Santana com investimento de R$ 7,4 milhões

Foto: Filipe Araújo/ MinC

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A ministra da Cultura, Margareth Menezes, participou, nesta segunda-feira (1º), em Feira de Santana, na Bahia, da entrega da reforma do Complexo Carro de Boi, equipamento cultural localizado junto ao Centro de Cultura Amélio Amorim. A solenidade reuniu o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, o secretário estadual de Cultura, Bruno Monteiro, parlamentares, autoridades locais, artistas, mestres e mestras da cultura popular e representantes de diferentes territórios culturais do estado.

Com investimento total de R$ 7,4 milhões, a requalificação contemplou a elaboração dos projetos executivos e a execução da obra de reforma do complexo. Parte do recurso tem como origem a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. De acordoc com a nota técnica da Secretaria de Cultura da Bahia, o projeto prevê a integração da área externa do Carro de Boi ao Centro de Cultura Amélio Amorim, criando um fluxo mais amplo para os frequentadores e fortalecendo o uso cultural e comunitário do espaço.

A intervenção inclui o espaço Jerimum, área multiuso entregue com climatização; uma arena de encenação ao ar livre, com arquibancadas para espetáculos, shows de pequeno porte, aulas de dança, práticas corporais e outras atividades; além de áreas ajardinadas e pomar, pensados para ampliar o contato entre arte, natureza e convivência. O complexo também passa a contar com espaços de alimentação e áreas abertas destinadas a piqueniques e encontros.

A programação teve início com uma roda de capoeira, seguida de uma visita à feira de artesanato Mulheres Negras que Produzem. Durante a cerimônia, foi realizado um minuto de silêncio em homenagem às vítimas de um acidente ocorrido na BR-116, na região de Santa Terezinha.

Para Margareth Menezes, a entrega representa mais do que a recuperação física de um equipamento cultural. O espaço, afirmou, traz a cultura como memória, identidade, formação e desenvolvimento econômico. “Porque a gente sabe a importância de investir na cultura, porque é na cultura que está o sentimento, é na cultura onde está a memória, é na cultura que está a inspiração, é na cultura que está a orientação para as novas gerações em relação à nossa identidade, aquilo que se produz”, disse.

A ministra também destacou a centralidade da cultura popular na construção da identidade brasileira. “É na cultura popular que está a nossa identidade, a identidade do nosso povo, essa diversidade, que não é problema nenhum, na verdade, é solução”, avaliou.

Ao defender o investimento no setor, Margareth ressaltou o impacto da cultura na geração de trabalho e renda nos territórios. “Investir em cultura é investir em emancipação, em educação, em fortalecimento do ser humano, mas principalmente investir também em economia, em dinheiro gerando na mão das pessoas”, declarou. “Esse lugar aqui vai gerar vários empregos cada vez que tiver uma apresentação, um festival, uma feira de livros”, completou.

A titular da Cultura fez ainda um chamado à população para que participe da preservação do equipamento. “Cada um aqui tem que ser um zelador desse equipamento, porque a entrega é do governo, mas é do povo. O povo tem que tomar conta e zelar, cada um aqui ser também um zelador, porque é de todos”, afirmou.

Memória sertaneja e nova ocupação cultural

Durante a solenidade, o secretário de Cultura da Bahia, Bruno Monteiro, lembrou que o processo de recuperação do espaço começou em 2023, durante uma visita a Feira de Santana com o governador Jerônimo Rodrigues. Na ocasião, ao ver o estado de degradação do Jerimum, o governador manifestou o desejo de recuperar o equipamento pela importância histórica e afetiva que ele guarda para a cidade.

“É um dia de muita emoção que nós estamos vivendo. Nós não medimos esforços para fazer um trabalho de muita dedicação, porque nós estamos falando de um monumento da arquitetura moderna”, avaliou.

Segundo o secretário, a requalificação exigiu a reconstrução integral da estrutura. Como o monumento não possuía plantas ou documentação técnica disponível, foram realizados estudos para avaliar a possibilidade de aproveitamento da base original. A conclusão foi de que a estrutura da abóbora estava comprometida e precisaria ser refeita, preservando a ideia e o formato do projeto original.

“Havia, no início desse processo, uma dúvida se nós poderíamos aproveitar aquela estrutura inicial. Nós fizemos um estudo sobre isso e se chegou à conclusão que não dava. Foi totalmente derrubada e feita novamente essa estrutura, recuperando a ideia e o formato de toda a estrutura original”, explicou.

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O novo complexo foi entregue como um parque cultural, com arena multiuso, coreto, dois palcos externos, parquinho infantil, fonte luminosa, áreas de convivência e espaços voltados à fruição artística. Os símbolos centrais do local, o Carro de Boi e o Jerimum, foram restaurados e devolvidos à comunidade como referências da cultura sertaneja, da produção de alimentos e da identidade de Feira de Santana.

Para Bruno Monteiro, a reabertura também aproxima gerações. “Nós queremos que as novas gerações também tenham contato com essa história”, afirmou. Segundo ele, a proposta é iniciar um roteiro permanente de ocupação do espaço com escolas das redes municipal, estadual e particular. “Nós queremos, a partir de amanhã, um roteiro permanente de ocupação desse espaço, para que a cultura se reinvente”, completou.

O espaço foi reaberto com a exposição O Sertão de Amélio Amorim, que apresenta referências históricas, afetivas e artísticas relacionadas à criação do complexo. A mostra reúne peças de acervo particular cedidas pela família e materiais que ajudam a contar a trajetória do equipamento cultural.

A diretora de Espaços Culturais da Bahia e historiadora, Larissa Santana, também ressaltou a importância da preservação da memória ligada ao complexo. “Nós estamos hoje aqui rememorando a história de um homem além do seu tempo, à frente do seu tempo, que não foi só um arquiteto, foi um artista e também aquele que contou o Sertão através da arquitetura dele”, afirmou.

Mestres e mestras da cultura popular

A cerimônia também marcou a entrega simbólica de certificados a mestres e mestras da cultura popular do Portal do Sertão. De acordo com nota técnica da Secretaria de Cultura da Bahia, a certificação reconhece detentores e transmissores de saberes, fazeres e tradições populares do estado, valorizando trajetórias que preservam a identidade baiana e fortalecem a diversidade cultural.

Ao todo, foram previstos 27 certificados para representantes do Portal do Sertão, em reconhecimento a trajetórias culturais premiadas por políticas da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc. A ação reafirma o compromisso com a preservação da memória cultural, dos saberes tradicionais e das manifestações populares, tradicionais e identitárias da Bahia.

Foram certificados: Apolinária das Virgens Oliveira, a Dona Chica do Pandeiro; Edson Oliveira da Conceição, do Circo Fênix; Berlindo Souza Silva, Mestre Bel da Bonita, in memoriam; Organização Cultural e Artística Reisado de São Vicente; Jacimar Coutinho Araújo, do Grupo Folclórico e Ponto de Cultura Mestre Asa Filho; Tarciso José Martins Dantas da Cruz; Jucelho Dantas da Cruz, cigano da etnia Calon; Margarete Alves de Jesus; Soter Conceição da Cruz Filho; Cristina Sales da Conceição Brandão, a Tia Munda; Aloizio Fernandes da Conceição, sambador; Valdemira Maria Vasconcelos, a Mãe Vadu; Domingos José da Paixão, conhecido como Domingos, Poeta Santeiro; Saturnino Dias Nery, Mestre Satur, rezador; Associação Comunitária Rural do Tomba e Adjacências; Pé de Arte Cultura Educação Pace; Escola de Capoeira Angoleiros do Sertão; Eliel Nunes da Silva; José Alves dos Santos, pioneiro da fotografia lambe-lambe na Bahia; Quadrilha Junina Treme Terra; Deybson Borba de Almeida, sacerdote do Ilê Alaketu Asé Ayralgbona; Marcelo Oliveira Lima; Gilson Souza Santana; Juraci Dorea Falcão; José Guedes Almeida dos Santos; Augusto de Souza Araújo Filho, Asa Filho; Antônio Evaldo Barboza Machado, Dionorina; José Marcionilio Prado Santos, Marcionilio Prado; e Raylan Rios dos Santos Júnior, do Circo Galáxia.

Uma das homenageadas, Dona Chica do Pandeiro, saudou os presentes, agradeceu às autoridades e celebrou o reconhecimento em vida, afirmando que o correto é “receber homenagens, assim, viva!”.

Os projetos reconhecidos foram selecionados a partir de critérios como adequação à categoria, mérito e relevância cultural, impacto e contexto social, conforme as exigências dos editais da LPG e da PNAB. O investimento destinado aos 27 mestres homenageados soma R$ 810 mil, com R$ 30 mil para cada contemplado.

Novos passos para a infraestrutura cultural

Além da entrega do Complexo Carro de Boi, a agenda marcou o anúncio de novos passos para a infraestrutura cultural de Feira de Santana. Durante a solenidade, foi realizada a assinatura formal da entrega do equipamento, consolidando a conclusão da requalificação do espaço.

No encerramento da cerimônia, a artesã Quênia Souza presenteou o governador Jerônimo Rodrigues com uma réplica do equipamento, em gesto simbólico de reconhecimento à memória e à identidade do complexo.

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A agenda também incluiu a assinatura de atos institucionais do Governo da Bahia, entre eles o edital de licitação para ampliação da taxiway do aeroporto e a autorização da licitação para a reforma completa do Centro Cultural Amélio Amorim, localizado ao lado do Complexo Carro de Boi.

“Hoje, ao encerrar aqui, eu haverei de autorizar a licitação que estará no Diário Oficial de amanhã, a licitação de uma reforma completa do Centro Cultural Amélio Amorim”, afirmou o governador.

Ao fim da solenidade, as autoridades realizaram o descerramento da placa de inauguração do Complexo Cultural Carro de Boi.

Segundo Jerônimo, a previsão é de que o edital permaneça aberto por 30 dias e que, após a ordem de serviço, as obras sejam concluídas em cerca de oito meses. Durante o período de intervenção, as atividades culturais deverão ser realocadas em parceria com a Universidade Estadual de Feira de Santana.

O governador também afirmou que a entrega do Carro de Boi representa uma primeira etapa de retomada do espaço e que o governo estadual deverá abrir edital para definir, com participação da comunidade, as atividades culturais que ocuparão o equipamento.

“Nós haveremos de abrir o edital para escutar a comunidade, para ouvir, para entender”, disse. A proposta inclui o fortalecimento de atividades artísticas, educativas e de geração de renda no complexo, com atenção à economia solidária, à agricultura familiar e à presença de mulheres negras empreendedoras.

A ministra Margareth Menezes também ressaltou a relevância arquitetônica e histórica do Complexo Carro de Boi e sugeriu que o espaço possa ser objeto de estudo para preservação futura. “Eu penso, eu até falei com o secretário Bruno, cabe aí um tombamento. A gente pensar futuramente”, afirmou.

Investimentos na Bahia

Desde a retomada do Ministério da Cultura, a Bahia tem recebido investimentos expressivos em fomento, incentivo, infraestrutura cultural e preservação do patrimônio. Pela Lei Paulo Gustavo, o estado recebeu R$ 285,6 milhões em recursos federais, destinados ao audiovisual e às demais áreas da cultura. Feira de Santana foi contemplada com R$ 4,6 milhões por meio da política.

Pela Política Nacional Aldir Blanc, a Bahia recebeu R$ 221,7 milhões no primeiro ciclo. No segundo ciclo, com quatro repasses previstos a partir de 2025, a política vai destinar mais de R$ 797,8 milhões ao estado e aos municípios baianos. Feira de Santana recebeu R$ 3,9 milhões no primeiro ciclo e já teve o repasse da primeira parcela de R$ 3,98 milhões no segundo ciclo. Ao todo, as quatro parcelas devem somar mais de R$ 15,9 milhões para o município.

A Lei Rouanet também apresenta crescimento na Bahia. Em 2024, foram captados R$ 37,8 milhões para 109 projetos culturais no estado. Em 2025, os valores já superam o ano anterior, com R$ 49,8 milhões captados por 134 projetos. Em Feira de Santana, seis projetos foram viabilizados, totalizando R$ 610 mil em captação.

O estado também é contemplado pelo Programa Rouanet Nordeste, criado pelo Ministério da Cultura para ampliar o acesso ao mecanismo de incentivo fiscal na região. Atualmente, seis propostas baianas foram aprovadas na iniciativa, em áreas como artes visuais, cultura digital, hip-hop, literatura e formação cultural.

Na área do patrimônio, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia vinculada ao MinC, mantém 15 intervenções em andamento na Bahia, entre obras e projetos de restauração e requalificação.

A Bahia também se destaca nas políticas de cultura de base comunitária, com 665 Pontos e Pontões de Cultura reconhecidos pela Política Nacional Cultura Viva. Além disso, recebeu R$ 1,95 milhão por meio do Prêmio Cultura Viva Sérgio Mamberti e R$ 1,2 milhão para fortalecimento dos Pontões de Cultura. O estado ainda foi contemplado com 23 unidades dos CEUs da Cultura, cada uma com investimento aproximado de R$ 2 milhões.

Ao defender a continuidade das políticas culturais nos territórios, Margareth Menezes afirmou que o investimento público em cultura precisa alcançar artistas, grupos, mestres, mestras e produtores que historicamente tiveram menos acesso aos mecanismos de fomento.

“Estamos trabalhando para que cada vez mais a gente acolha quem sempre esteve fora. A Lei Aldir Blanc está permitindo, pela primeira vez, o setor cultural ter um investimento direto do Governo Federal para as cidades e para os estados”, concluiu.

Fonte: Ministério da Cultura

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