Nutricionista da Estácio Fapan explica por que a busca por alívio emocional leva muita gente à comida e às cápsulas, e alerta que “natural” não significa “seguro”
No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, a resposta passa pela ansiedade. A comida vira refúgio depois de um dia estressante e, cada vez mais, cápsulas, chás e pós entram na rotina como promessa de acalmar, emagrecer ou dar energia.
Os números mostram esse movimento. Segundo a pesquisa Hábitos de Consumo de Suplementos Alimentares no Brasil, da Abiad, de 2023, os suplementos estão presentes em 59% dos lares brasileiros. Já o levantamento Tetra Pak FSN Global Consumer, feito com a Ipsos em 17 países em julho de 2025, apontou que o Brasil é o país onde mais gente associa suplementos e nutrição ao bem-estar mental: 45%, contra média de 33% no conjunto dos países. No campo do comportamento alimentar, dados da Organização Mundial da Saúde indicam que 4,7% dos brasileiros convivem com transtornos alimentares, quase o dobro da média global, de 2,6%.
Para a nutricionista Tânia Queiroz Marreira, especialista em Nutrição clínica, funcional, esportiva e fitoterápica e docente da Estácio Fapan, em Cáceres (MT), os dois fenômenos estão ligados. “E ao olhar apenas para o alimento muitas vezes significa olhar somente para o final da história. “Antes de perguntar apenas ‘o que você comeu?’, precisamos entender o que estava acontecendo com você quando você comeu. Muitas vezes, a pessoa não está procurando comida. Ela está procurando alívio”, comenta.

A docente complementa que para uns, ele vem na forma de um doce ou de um salgado. Para outros, na forma de um chá, de um manipulado ou de um suplemento. Em ambos os casos, o risco é tratar o sintoma sem entender a causa”, explica.
Comer por ansiedade: uma resposta aprendida
Segundo a especialista, o comer emocional não é falta de controle ou falta de força de vontade. “Os alimentos, principalmente o rico em açúcar, gordura e sal, traz uma sensação rápida de conforto, prazer e recompensa. O cérebro registra esse alívio e, com o tempo, passa a buscar a comida sempre que a emoção aparece. “Imagina, se toda vez que estou cansada, ansiosa ou frustrada eu encontro alívio na comida, meu cérebro começa a reconhecer aquele caminho como uma resposta possível”, afirma.
A distinção entre fome física e emocional é o primeiro passo. A fome física surge de forma gradual, aceita diferentes alimentos e cessa com a saciedade. A emocional costuma aparecer de repente, vem com desejo por um alimento específico, geralmente ultraprocessado, e pode trazer culpa depois. “Um bom teste é se perguntar: eu comeria uma fruta ou uma refeição de verdade agora? Se a resposta for não, e só um doce ou um salgado específico resolve, vale investigar o que está por trás, por isso, o mais importante é desenvolver percepção sobre o próprio comportamento”, orienta Tania.
Dietas muito restritivas também entram nessa conta. “Quem passa o dia em restrição, chega o final do dia cansada e com fome, muitas vezes sob ansiedade e acaba comendo mais do que gostaria, sente culpa e acaba “compensando” o que faz ela entrar em um ciclo prejudicial e sem fim, de restrição, fome, exagero, culpa e nova restrição. Uma alimentação equilibrada, com refeições regulares, ajuda a reduzir a intensidade desses episódios”, diz a nutricionista.
Quando os episódios de comer em grande quantidade são frequentes, com sensação de perda de controle e culpa, como afirma a nutricionista, podem indicar compulsão alimentar, e o acompanhamento deve envolver nutricionista, psicólogo e, se necessário, médico. “Às vezes, a pessoa passa anos tentando controlar a alimentação sem perceber que o próprio controle excessivo está alimentando o problema”, explica.
Fitoterápicos e suplementos: quando ajudam e quando prejudicam
Se por um lado algumas pessoas recorrem à comida em momentos de ansiedade, por outro existe uma crescente oferta de produtos que prometem justamente resolver rapidamente aquilo que incomoda. Chás “detox”, cápsulas para emagrecer, produtos para controlar o apetite, suplementos para “acelerar o metabolismo”, compostos para ansiedade, produtos naturais para dormir ou para aumentar a energia estão cada vez mais presentes nas redes sociais e no cotidiano.
A busca por uma solução rápida também aparece fora do prato
A saída, porém, não deve ser trocar a comida por cápsulas. Fitoterápicos e suplementos podem ser aliados quando há indicação clara, como deficiências comprovadas em exames (ferro, vitamina D, B12), fases da vida com demandas específicas, como a gestação, restrições alimentares ou rotinas esportivas intensas. Os fitoterápicos têm evidências de benefício em situações específicas, desde que planta, dose e forma de preparo sejam adequadas a cada pessoa.
“O suplemento é um complemento, não um substituto da alimentação. Quando o paciente tem um objetivo definido e acompanhamento, a suplementação pode fazer diferença. O problema começa quando ela vira o ponto de partida, e não a exceção”, afirma Tânia.
Os riscos aparecem, em geral, em três situações: uso sem necessidade, doses acima do recomendado e combinações feitas por conta própria. “Existe a ideia de que, se é natural, não faz mal. Mas plantas medicinais têm compostos ativos, que agem no organismo e podem interagir com medicamentos, alterar a pressão, sobrecarregar o fígado ou os rins”, alerta a especialista. Há interações conhecidas: a erva-de-são-joão pode reduzir a eficácia de anticoncepcionais e antidepressivos, e o ginkgo biloba pode aumentar o risco de sangramento em quem usa anticoagulantes. Produtos sem registro ou com promessas de resultados rápidos agravam o cenário.
O que fazer no dia a dia
Segundo a professora hábitos simples ajudam a interromper o ciclo. “O primeiro é manter horários regulares de refeição e evitar longos períodos em jejum, o que reduz a chance de compensações à noite. Antes de comer fora de hora, vale fazer uma pausa de alguns minutos e identificar o que se está sentindo, além de ter opções nutritivas à mão e evitar estocar em casa os alimentos que funcionam como gatilho, a proposta não é tirar o prazer da comida. É ampliar o repertório da pessoa para que ela não dependa exclusivamente da comida para se sentir melhor”, indica.
Tânia reforça que é importante criar formas de alívio que não passem pela comida, como caminhada, exercícios de respiração e conversa com alguém de confiança, e priorizar o sono e a atividade física, que ajudam na regulação do apetite e do humor. “Quanto a suplementos e fitoterápicos, o ideal é procurar um nutricionista ou outro profissional habilitado antes de usar qualquer produto, principalmente para quem toma medicamentos de forma contínua, está grávida, amamentando ou tem doenças crônicas. Prefira produtos regularizados pela Anvisa, informe aos profissionais tudo o que consome, inclusive chás, e desconfie de promessas milagrosas”, complementa.
No fim das contas, falar de alimentação é falar também de comportamento, rotina, emoções e contexto.“Nem sempre o problema está no alimento que você está comendo. Às vezes, precisamos olhar para aquilo que aconteceu antes de você chegar até ele.” E essa mudança de olhar pode ser justamente o primeiro passo para sair do ciclo de culpa e começar a construir uma relação mais consciente e sustentável com a alimentação.

























