O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) participou, nesta sexta-feira (26), em São Paulo (SP), da cerimônia de sepultamento de Grenaldo de Jesus Silva, ex-marinheiro perseguido pela ditadura militar brasileira e identificado em 2025 entre os remanescentes ósseos encontrados na Vala Clandestina de Perus. O ato representa mais um importante passo da política de memória, verdade, justiça, reparação e não repetição desenvolvida pelo Governo do Brasil, assegurando à família o direito ao sepultamento digno após mais de cinco décadas de espera.
A cerimônia teve início com a saída dos remanescentes ósseos do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em direção ao Cemitério Dom Bosco. Em seguida, familiares, representantes de órgãos públicos, movimentos de direitos humanos e instituições parceiras participaram de um ato próximo ao memorial da Vala Clandestina de Perus, seguido do sepultamento.
A realização da cerimônia foi definida no âmbito do Gabinete de Conciliação referente à Ação Civil Pública nº 0025169-85.2009.4.03.6100. A organização reuniu esforços da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), do MDHC, da concessionária Cortel, responsável pela administração do cemitério, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São Paulo e do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp.
Memória como compromisso democrático
A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello, destacou o significado histórico da cerimônia, realizada no Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura, e reafirmou o compromisso do Estado brasileiro com a preservação da memória e a promoção da justiça. “Esta cerimônia acontece em uma data de grande simbolismo. O Brasil reafirma hoje seu compromisso inegociável com a dignidade da pessoa humana e com a rejeição absoluta da tortura. Não existe democracia forte sobre o esquecimento”, afirmou.
A ministra ressaltou que a identificação do ex-marinheiro representa mais do que um avanço científico, constituindo um ato de justiça histórica. “Reconhecer Grenaldo de Jesus Silva é reafirmar o direito à verdade. O Estado tem o dever de reconhecer, reparar, preservar a memória e assegurar que violações como essas nunca mais se repitam. Hoje afirmamos que seu nome jamais voltará ao anonimato.”
Janine também destacou o fortalecimento da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e a continuidade do Projeto Perus como iniciativas fundamentais para a reparação histórica. A gestora lembrou que a descoberta da Vala Clandestina de Perus, em 1990, foi resultado da mobilização persistente de familiares e defensores dos direitos humanos, tornando possível que o Estado brasileiro enfrentasse um dos maiores símbolos da violência praticada durante o regime militar. “A vala representava não apenas a ocultação dos corpos das vítimas da repressão, mas também a tentativa deliberada de apagar as suas histórias e impor o esquecimento.”
A ministra também destacou a importância da atuação da então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, na abertura da vala clandestina, bem como homenageou Antônio Pires Eustáquio, ex-administrador do Cemitério Dom Bosco, que contribuiu para revelar sua existência, além do trabalho do Governo Federal para fortalecer a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, instrumento essencial para que o Estado brasileiro reconheça as graves violações cometidas durante a ditadura e avance no dever da reparação e da justiça.
“A retomada de seus trabalhos reafirma o compromisso do governo do presidente Lula com a memória, a verdade, a justiça e a não repetição, permitindo que o Projeto Perus continue avançando na identificação das vítimas e na restituição de suas histórias às suas famílias”, concluiu.
Ainda durante a cerimônia, o chefe da Assessoria Especial de Defesa da Democracia, Memória e Verdade do MDHC, Hamilton Pereira, apresentou o poema-testemunho “Tempo-Noite”, homenageando as vítimas da violência de Estado e reafirmando a importância da memória coletiva como instrumento de fortalecimento da democracia.
Reparação para a família
Emocionado, Grenaldo da Silva Mesut agradeceu às equipes envolvidas na identificação do pai e afirmou que o momento representa o encerramento de uma longa espera. “É uma mistura de emoções, mas, acima de tudo, uma felicidade muito grande. Hoje posso dar um lugar digno ao meu pai. Espero que outras famílias também possam viver esse momento e encontrar seus entes queridos”, ressaltou.
A neta de Grenaldo, Paloma, leu um texto preparado em conjunto com o pai e destacou a importância de finalmente transformar décadas de ausência em um momento de despedida. “Hoje dou um lugar à memória, ao luto que ficou suspenso e à história que insistiu em permanecer. Que esta despedida traga o descanso que meu avô não pôde ter durante todos esses anos”, rescitou.
Trabalho coletivo pela verdade
Também presente na cerimônia, a presidenta da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Eugênia Augusta Gonzaga, ressaltou que a identificação foi resultado de anos de trabalho conjunto envolvendo instituições brasileiras e internacionais, além da confiança da família.
“Isso só foi possível graças ao esforço de inúmeras equipes periciais e à colaboração da família. Hoje cumprimos um ritual que foi negado a Grenaldo por mais de cinquenta anos”, afirmou. Ela também destacou que a identificação representa uma reparação histórica diante das graves violações cometidas pelo Estado durante a ditadura militar.
Representando a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, Amelinha Teles lembrou que a cerimônia simboliza décadas de mobilização da sociedade civil. “Esse momento é fruto de uma longa luta pela memória e pela verdade. Cada identificação representa uma vitória coletiva e reforça a importância de que todas as famílias possam dar um sepultamento digno aos seus familiares.”
Uma espera de mais de cinco décadas
Natural do Maranhão, Grenaldo de Jesus Silva era oficial da Marinha do Brasil. Em 1964, foi preso após reivindicar melhores condições de trabalho e, posteriormente, recusou-se a aderir ao golpe militar. Perseguido pelo regime, passou a viver na clandestinidade.
Em 1972, aos 31 anos, foi morto durante uma tentativa de capturar uma aeronave no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Seu corpo foi enterrado como indigente no Cemitério Dom Bosco e permaneceu desaparecido até sua identificação, concluída em 2025 pelo Projeto Perus.
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Texto: E.G.
Edição: F.T.
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