Quando Daniele da Silva precisava dizer onde morava, o endereço nem sempre cabia no formulário. A casa estava lá. A rua também. Os vizinhos sabiam chegar, os entregadores pediam referência, a família explicava o caminho, mas faltava uma informação simples e decisiva para que aquele território fosse reconhecido como parte da cidade: o CEP.
Moradora da comunidade Nova Esperança, em Campo Grande (MS), ela viveu durante anos em uma casa que existia para quem passava pelo local e para quem dividia a rotina com os moradores, mas que ainda encontrava barreiras diante de cadastros, entregas, serviços públicos e sistemas que exigem um endereço formal.
“Quando a gente só fala que mora numa comunidade, parece que a gente não é nada. O CEP ajuda a gente com cadastro no CRAS, na escola, a pedir uma entrega”, comemora Daniele.
Com a chegada do CEP para TODOS, programa da Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades, em parceria com os Correios e o Ministério das Comunicações, a comunidade passou a ter um endereço reconhecido oficialmente.
Na terceira reportagem da série “Casa é mais que moradia”, o Ministério das Cidades mostra que casa também é endereço. É o lugar onde a vida acontece, mas também o ponto a partir do qual uma pessoa acessa direitos, recebe correspondências, busca atendimento, se cadastra em programas, comprova onde mora e se apresenta para a cidade sem precisar improvisar a própria localização.
A primeira fase do programa do Governo do Brasil garantiu CEP geral para favelas e comunidades urbanas do país. Foram implementados 12.348 CEPs válidos como uma referência geral para cada uma das 656 cidades incluídas no programa. Isso impactou 16,3 milhões de pessoas. Esse marco contribuiu para ampliar o acesso a direitos básicos, como atendimento em unidades de saúde, inscrição em vagas de emprego e matrícula em escolas e creches.
Agora, o programa está se desdobrando nas etapas 2 e 3, a depender da localidade, melhorando ainda mais o dia a dia cotidiana dos moradores: o mapeamento interno, com identificação de ruas, vielas e becos para a geração de CEPs por logradouro; e a implantação de unidades dos Correios.
Até o momento, foram gerados mais de mil CEPs em comunidades de 12 cidades, identificando ruas em 11 estados brasileiros.
No loteamento Dorothy Stang, em Sobradinho (DF), esse processo vai eternizar a história do local. As ruas que durante anos foram identificadas por nomes escolhidos pelos próprios moradores representativos de momentos vividos pela comunidade, agora, ganharam reconhecimento formal.
Em alguns casos, o nome guarda a história de uma liderança antiga. Em outros, lembra uma característica do território, um desejo ou uma lembrança coletiva.
“A quadra Liberdade, por exemplo, é porque foi o que a gente sempre quis liberdade para permanecer aqui, onde erguemos nossas casas”, explica Rita de Cássia Borges, uma das moradoras mais antigas da comunidade, lembrando a luta pelo reconhecimento do local.
Para a comerciante Roseane Ferreira, esse marco representou uma oportunidade de expansão do seu negócio. Agora, ela pode receber seus produtos e realizar uma melhor divulgação do serviço.
“Eu tenho uma vendinha, aí com todo o endereço, direitinho, posso ligar e a pessoa vir na minha localização. Para mim é muito bom, está sendo cada vez melhor”, comemorou a moradora.
Agência dos Correios
O reconhecimento também chega pelo caminho das entregas. No Jardim do Colégio, em Embu das Artes, São Paulo, a comunidade inaugurou recentemente a primeira agência dos Correios do país instalada em território periférico. A conquista marcou o início da fase 3 do CEP para TODOS e já está oferecendo serviços como postagem e recebimento de encomendas e correspondências com cobertura nacional e rastreamento.
Para quem mora no território, a presença dos Correios perto de casa pode reduzir deslocamentos, facilitar o envio e recebimento de produtos e fortalecer pequenos negócios locais. Para quem empreende dentro da comunidade, o endereço reconhecido também ajuda a conectar o trabalho feito ali com clientes de outros lugares.
Além de organizar ruas em um sistema, o CEP para TODOS reconhece uma cidade que já existia. Casas, histórias, trajetos, comércios, vínculos e nomes que nasceram da própria comunidade. Com o programa, muda-se a forma como o território passa a ser visto.
Porque casa é espaço, é memória, é convivência. E casa também é endereço.
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Fonte: Ministério das Cidades























