“A gente não pode prescindir do conhecimento milenar que os povos indígenas construíram”, destacou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta quinta-feira (28/5), ao sancionar o Projeto de Lei nº 6.132/2025, que cria a Universidade Federal Indígena (Unind). A frase resume o propósito da instituição, nascida de um projeto coletivo que busca o reconhecimento dos saberes produzidos pelos povos originários. A ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), Esther Dweck, participou da cerimônia.
Para representantes indígenas, o momento simboliza a realização de um sonho antigo e reflete um período de políticas públicas que reafirmam o compromisso com as etnias. “O que estamos fazendo é contribuir para que vocês voltem a ter aquilo que nunca deveria ter sido tirado de vocês”, pontuou o presidente. Entre as diferentes iniciativas que têm se voltado a esse propósito está a realização do Concurso Público Nacional Unificado (CPNU), que, em órgãos específicos, como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), assegurou 30% de vagas específicas para candidatos indígenas, além de reservar 3% do total de vagas para essa população na segunda edição do concurso.
A criação da Unind atende a uma demanda antiga dos povos indígenas por uma educação superior conectada a seus territórios, línguas, culturas e formas próprias de produzir conhecimento. Além da oferta de vagas, o objetivo principal é que a universidade seja um espaço para reconhecer saberes indígenas como parte da formação acadêmica, da pesquisa e da extensão universitária.
“Nós, povos indígenas, possuímos ciências, filosofias, sistemas linguísticos, tecnologias, sistemas agrícolas, conhecimentos ambientais, formas próprias de ensinar e de compreender o mundo. A Universidade Federal Indígena será um espaço onde os conhecimentos tradicionais dialogam com as diferentes áreas das ciências contemporâneas”, afirmou a pesquisadora Rita Potyguara, representante do Fórum Nacional Indígena.
Construção participativa e visão de futuro
“O Brasil dá mais um passo em direção à reparação histórica que nossos povos tanto merecem. Durante séculos, o conhecimento dos nossos povos foi negado, silenciado e tratado como inferior”, lembrou a deputada federal Sonia Guajajara. Ela também acrescentou que o projeto demonstra como construir e fazer política pública de maneira participativa. “E nós só conseguimos fazer isso num governo democrático”, disse.
A criação da Unind é resultado de um longo processo de debate. A construção da proposta envolveu grupos de trabalho desde 2012. Em 2024, foram realizados mais de seminários em 20 localidades de diferentes regiões e estados. “Estamos diante da ascensão da primeira universidade indígena no Brasil, construída de forma verdadeiramente participativa: ela nasce da escuta, do diálogo, da construção coletiva e do respeito à diversidade dos nossos povos”, frisou Potyguara.
O ministro da Educação, Leonardo Barchini, detalhou que a Unind vai ter sede em Brasília, com previsão de inauguração do prédio ainda no mês de junho. “Iniciaremos com 366 docentes, 383 técnicos, 2,8 mil estudantes e 10 cursos de graduação”, comentou. O objetivo, no entanto, é expandir o alcance da instituição, que prevê abertura de novos campi pelo país. Durante o evento, Barchini informou que o governo federal vai comprar o prédio da Universidade dos Correios para transformá-lo em mais uma instalação da Unind.
“Esta universidade é um sonho de nossas lideranças indígenas, fruto de uma decisão política dos nossos caciques que, em um determinado momento, elegeram a estratégia de travar a luta por direitos com a caneta”, contou o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena. Ele recobrou sua própria trajetória como estudante para demonstrar a importância do ato: “Faço parte dessa geração de jovens indígenas que fizeram esse percurso da aldeia para a universidade. Há 20 anos, eu estava saindo da minha aldeia e indo para a universidade por meio do ProUni (Programa Universidade para Todos). De lá para cá, nós formamos vários outros mestres e doutores indígenas”.
“Hoje, nós, os povos indígenas — que estamos aqui antes mesmo do Brasil existir —, conquistamos a nossa universidade e com ela renovamos nossa promessa mais antiga, a de cuidar da terra, da vida e do futuro da humanidade. Porque o futuro do Brasil passa pelas florestas de pé, passa pelos rios vivos e pelos povos da floresta, também, de pé”, declarou Guajajara. Com a sanção presidencial, a Unind passa a integrar a política pública de educação superior como uma instituição voltada à autonomia, à formação, à preservação das línguas, à gestão territorial e à valorização dos conhecimentos indígenas.
Fonte: Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos
























