A Economia do Samba foi tema de debate na tarde desta segunda-feira (22) durante o 1º Seminário Nacional das Rodas de Samba. O evento é uma realização do Ministério da Cultura e acontece no Palácio Gustavo Capanema e no Renascença Clube, na cidade do Rio de Janeiro, até a próxima quarta-feira (24).
Com as participações do doutor em Geografia Humana, pesquisador da economia criativa e cofundador da Rede Carioca de Rodas de Samba, João Grand Jr.; do produtor cultural, empresário e proprietário da Casa Savana, Pedro Oliveira; da idealizadora do Festival Divas do Samba, Ellen Oliveira; do cantor, compositor e idealizador da Feira das Yabás, Marquinhos de Oswaldo Cruz e do diretor de políticas da Ambev, Lucas Lima, a roda de conversa teve como tema “Economia do Samba – Fomento, Sustentabilidade e a Economia Criativa das Ruas” e foi marcada pela troca de experiências no universo que envolve a produção cultural do samba.
Para João Grand Jr., o momento atual é muito oportuno para o desenvolvimento das políticas cultural e criativa ou, mais precisamente, para o pensar cultura e economia dentro de uma mesma perspectiva. Ele ressaltou que as rodas de samba do Rio de Janeiro, em particular, têm feito essa discussão há mais de uma década e que hoje o grande debate é como a economia criativa pode se apresentar como um modelo de desenvolvimento inovador, inclusivo, sustentável e com a perspectiva territorial no centro das discussões.
O empresário Pedro Oliveira, que se define como um operário do samba, relembrou que realizava uma roda de samba na praça que tinha apenas seis banheiros para duas mil pessoas. “Isso por conta da dificuldade de se montar uma estrutura. Foi muito difícil essa época fazer samba na rua porque montar um evento era muito caro”, disse. Em muitos momentos, sua vontade de fomentar o ritmo encontrou barreiras como o preconceito, e foi necessário muito apoio e força de vontade para superar esses obstáculos. “Quando consegui achar um lugar para alugar, mandei toda a papelada e fui assinar. O dono do espaço falou: ‘preto não assina’. Foi doloroso para mim. Fiquei dias acreditando naquilo. Eu olhava no espelho e não via um empresário”, revelou.
Já Ellen Oliveira compartilhou suas ações para fortalecer a presença feminina no Festival Divas do Samba, dos palcos à plateia. Ela contou que esse movimento tem trazido muitos frutos, como a capacitação de mulheres para atuar na área técnica de eventos, além de uma maior valorização e segurança do público e artistas femininas. “Vi um desentendimento de um roadie com uma artista e pensei: vamos trazer a mulheres também para a área de backstage. Busquei uma diretora de palco, uma técnica de luz, uma técnica de som, de monitor e eu tive muita dificuldade de incluí-las no festival. Foi aí que a gente colocou as oficinas e estamos trazendo essas mulheres para trabalhar dentro do festival. Esse olhar vem sendo ampliado a cada ano”, afirmou.
Tecnologia ancestral
Para Lucas Lima, muito mais do que um instrumento de economia criativa, o samba é uma ferramenta de cura para problemas muito presentes no mundo contemporâneo, como a solidão, uma vez que o ritmo une as pessoas e trata dos mais variados assuntos. “A gente vê o samba como uma tecnologia para falar de uma série de questões que a gente tem e ela vem sendo usada há muito tempo. Então, para além da economia criativa, o samba entra também no debate da política pública de saúde”.
Natural do tradicional bairro de Madureira e apaixonado pela Portela, Marquinhos de Oswaldo Cruz contou que o seu ingresso na produção cultural se deu por inquietação de ver a história do seu local de origem ser esquecida. “Sempre fiquei inquieto com determinadas coisas. Por isso queria ter um espaço para que a gente pudesse apresentar o nosso universo que estava se diluindo”.
Para a secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura do MinC, Roberta Martins, o encontro não trata apenas de economia. “É mais do que isso. A economia é fundamental, mas não podemos deixar uma questão sobrepor a outra e a gente não pode perder a questão da identidade. São muitas histórias e memórias que essa cultura guarda”.
O gerente de projetos do MinC, Fabrício Antenor, ressaltou que o Ministério foi encontrado pela atual gestão com diversos problemas e sem nenhuma estrutura, mas que graças ao trabalho da equipe liderada pela ministra Margareth Menezes, foi possível estruturar a pasta. Ele frisou que os diálogos no seminário são um ponta pé inicial de uma ação maior que será construída com todos os atores envolvidos nessa pauta. “Vamos trabalhar juntos, vamos pensar juntos, vamos estruturar porque é dessa forma que a gente consegue avançar”, disse.
A presidente em exercício da Funarte, Aline Vila Real, ressaltou que a Fundação é responsável pelas políticas públicas no campo das artes. Logo, o samba e tudo o que o envolve é assunto de grande interesse do Ministério. “Aqui falamos dos vários elos de interesse da política nacional das artes, como acesso, formação, difusão, internacionalização, reflexão, memória. Tudo o que foi falado aqui hoje está conectado com as premissas dessa política”, concluiu.
Fonte: Ministério da Cultura
























