O primeiro dia do Fórum Brasil Criativo + Seminário da Rede de Cultura e Economia Criativa – Região Sudeste, realizado nesta terça-feira (17), no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, foi marcado por debates sobre financiamento e fomento para o segmento e pela entrega da versão impressa em português do Marco de Estatísticas Culturais 2025 (FCS), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
A programação integra a última etapa regional do Fórum Brasil Criativo, iniciativa do Ministério da Cultura (MinC), por meio da Secretaria de Economia Criativa, em parceria com o Sebrae Nacional e com organização do Instituto BR Arte. Após percorrer quatro regiões brasileiras, o encontro reúne agentes culturais, empreendedores, pesquisadores, gestores públicos e especialistas para contribuir com a construção do Plano Nacional de Economia Criativa, na quinta região.
Durante a abertura, a secretária de Economia Criativa do MinC, Cláudia Leitão, destacou a necessidade de reposicionar a cultura como eixo estruturante das políticas de desenvolvimento do país.
“Penso que a Secretaria de Economia Criativa, na história do Ministério da Cultura, resgata essa memória primordial: precisamos falar de políticas culturais como políticas de desenvolvimento e como políticas sociais”, afirmou.
Para Cláudia, o Brasil precisa ampliar sua visão sobre desenvolvimento econômico, incorporando seus ativos culturais e criativos.
“Temos nos beneficiado durante décadas dos minérios, da soja e da carne. A pergunta é: basta isso? Tenho a impressão de que estamos aqui justamente porque não concordamos com isso. E esse movimento de discordância precisa ser também um movimento de reação. O que podemos fazer para compreender e ampliar nosso cardápio de desenvolvimento?”, provocou.
Marco de Estatísticas Culturais da UNESCO e o conceito de economia criativa
Um dos destaques da abertura foi a entrega da versão impressa, em português, do Marco de Estatísticas Culturais 2025 (FCS), publicação da Unesco considerada uma referência internacional para a produção e análise de dados culturais.
A oficial de Projetos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, Mariana Salvadori, explicou que o documento busca estabelecer conceitos comuns para a mensuração da cultura e da economia criativa em diferentes países.
“A publicação é composta por dois volumes e busca definir conceitos fundamentais para a mensuração da cultura. Seu principal papel é nivelar o entendimento sobre o que compreendemos como cultura e quais setores criativos devem ser considerados na produção de estatísticas e na coleta de dados culturais”, explicou.
Entre as inovações do documento, Salvadori destacou a incorporação do conceito de ecossistema cultural e criativo, que amplia o conjunto de atividades consideradas nos processos de mensuração.
“Trata-se de uma inovação importante porque amplia significativamente os setores considerados dentro da economia criativa, incluindo áreas como memória e patrimônio, que frequentemente ficam de fora dos processos de mensuração. Nem sempre conseguimos dimensionar adequadamente os benefícios econômicos e sociais gerados por atividades relacionadas a museus, patrimônio cultural e preservação da memória, mas elas são parte fundamental desse ecossistema”, afirmou.
Segundo ela, o documento fortalece a produção de evidências e a formulação de políticas públicas voltadas ao setor.
“O FCS busca justamente criar um fio condutor que permita compreender, em escala global, o peso da cultura para o desenvolvimento sustentável. Isso fortalece a capacidade de argumentação em favor da cultura e possibilita a formulação de políticas públicas baseadas em evidências”, destacou.
Na mesma linha, Cláudia Leitão defendeu a ampliação do debate sobre o tema no país.
“Precisamos letrar o Brasil sobre economia criativa. Tenho insistido muito nessa ideia. É uma tarefa das universidades, dos institutos federais e de todas as instituições que produzem conhecimento. Não é uma tarefa simples e leva tempo”, afirmou.
Fomento além dos recursos financeiros
Assim, como nos outros Fóruns regionais, a programação contou com a palestra, desta vez, sobre Fomento e Financiamento para a Economia Criativa, ministrada pela professora e pesquisadora Luciana Lima Guilherme, doutora em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Ao abordar os desafios para o fortalecimento do setor, a pesquisadora defendeu uma visão ampliada do fomento, baseada em quatro dimensões complementares: financeira, técnica, institucional e de inteligência.
“Enquanto o financeiro disponibiliza recursos, o técnico desenvolve capacidades; o institucional fortalece ambientes, governança e articulação; e a inteligência produz conhecimento e evidências. Tudo isso contribui para a viabilização de projetos e organizações, para a qualificação da sustentabilidade dos agentes e para a construção de ecossistemas criativos mais robustos”, explicou.
Segundo ela, o debate sobre financiamento precisa ir além da lógica de apoio a projetos isolados e considerar o fortalecimento dos ecossistemas culturais e criativos.
“O Marco do Estatísticas Culturais da Unesco, publicado pelo Ministério da Cultura, já representa um avanço importante ao desburocratizar processos. Mas fico pensando se não seria possível avançar para um marco específico do fomento à economia criativa, que envolvesse questões mais amplas do ecossistema, para além dos aspectos burocráticos dessa relação”, afirmou.
Luciana também apresentou experiências internacionais de países como Reino Unido, Canadá, Coreia do Sul, Colômbia e Chile, destacando diferentes modelos de governança, financiamento e articulação institucional voltados às indústrias criativas.
Ao analisar essas iniciativas, apontou que uma das principais tendências internacionais é a mudança de foco do financiamento de projetos para o fortalecimento de ambientes capazes de gerar inovação, sustentabilidade e desenvolvimento territorial.
“Precisamos construir estratégias de fomento capazes de induzir processos duradouros, superar descontinuidades e garantir condições reais para o desenvolvimento da economia criativa”, defendeu.
Construção coletiva de políticas públicas
Encerrando as atividades da manhã, Cláudia Leitão retomou a importância da construção coletiva de conceitos e políticas públicas para consolidar a economia criativa como estratégia nacional de desenvolvimento.
“A gestão pública frequentemente parece aquém do que a sociedade deseja, mas é justamente quando nos sentamos para pensar, desenhar e estruturar soluções que conseguimos avançar”, afirmou.
Para a secretária, o desafio envolve adaptar conceitos internacionais à realidade brasileira e construir uma compreensão própria sobre o tema.
“Precisamos construir um repertório próprio, um letramento em economia criativa que faça sentido para nossa realidade. Essa também é uma tarefa das políticas públicas, das instituições de formação e dos espaços de debate”, disse.
Ela destacou ainda a necessidade de ampliar as conexões entre cultura, desenvolvimento, sustentabilidade e inovação.
“A cultura não pode permanecer restrita ao campo da cultura. Ela precisa dialogar com desenvolvimento, meio ambiente, inovação, educação e inclusão. Esse é o desafio de uma política sistêmica de economia criativa. Um desafio complexo, mas absolutamente necessário para que possamos construir um modelo de desenvolvimento mais inclusivo, sustentável e conectado à diversidade cultural brasileira”, concluiu.
O Fórum Brasil Criativo + Seminário da Rede de Cultura e Economia Criativa – Região Sudeste continua nesta quinta-feira (18), com palestras, oficinas, mesas temáticas e atividades de escuta voltadas à construção do Plano Nacional de Economia Criativa.
O encontro busca reunir contribuições dos diferentes territórios brasileiros para a formulação de políticas públicas capazes de fortalecer a economia criativa como vetor de desenvolvimento econômico, social e cultural.
O encerramento será transmitido ao vivo pelo canal do Ministério da Cultura no YouTube, a partir das 15h30.
Fonte: Ministério da Cultura
























