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Alberto Romeu Pereira
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Sábado, 08 de agosto de 2015, 12h16

O homem que invoca fé no voto para consertar pontes

Há uma semana o jornal PlantãoNews está publicando uma série de reportagens sobre - em princípio - a duas pontes abandonadas na área rural de Juscimeira (a cerca de 150 km ao Sul de Cuiabá). Uma, sobre o Rio Cainana na rodovia estadual MT 373, está há um ano semi destruída. A outra, sobre o Rio Areia, foi remendada com madeira imprópria e está prestes a cair. Esta, faz dez anos que atormenta os moradores da região. E, pasmem: as duas 'obras' estão a aproximadamente a 2 km da sede da prefeitura da cidade.

O município tem um grande pontecial turístico com suas águas termais e pousadas. E, mais que isso, é produtor agrícola, pecuário - gado de corte e leiteiro - e em expansão o pontecial de piscicultura. Ou seja, é um entra e sai de insumos, equipamentos, veículos, materiais de construção e o escoamento da produção. O que envolve muitas vidas, inclusive a comunidade escolar. Só em um assentamento são cerca de 140 famílias.

As duas pontes formam um 'contorno' na região do Cainana e possibilita acesso à localidade de Irenópolis, distrito de Juscimeira. A extensão por terra dá cerca de 2 km. Na ponte do Cainana existe apenas uma viga, por onde passam motos, bicicletas e pedestres. Dentre os pedestres estava a criança Rodrigo Alves Francisco da Rocha que ia à pé para a escola no centro da cidade. Andava 800 metros e esperava a Kombi, na 'moita de bambú'. Após a primeira reportagem, o PlantãoNews tratou do problema do transporte através da secretaria de Educação do município. O coordenador Enilton Moreira dos Santos disse que não era possível resolver devido as regras do transporte escolar. E que a criança não o havia procurado e classificou o fato como "infundado". Apesar das fotos, vídeos e depoimentos. A reportagem invocou o Conselho Tutelar alertando sobre os riscos à vida da criança. Dois dias depois Rodrigo informa que que "a Kombi vai passar lá em casa pra me buscar". Onde entra o bom senso, sai a insensatez.

Mas Rodrigo não está sozinho na história. Seu pai, seu José Francisco, 53 anos, caiu da ponte quando passava à noite de moto, uma profundidade de 5 metros aproximadamente. Fraturas na bacia, pernas... e na alma pois ficou um bom tempo debaixo da ponte, imaginando a morte e deixar a família. Quando ouviu alguém passando na escuridão gritou por socorro. "Me tiraram com dificuldade. Levaram para o hospital, fiquei 30 dias internado" - sobrevivi, graças a Deus disse ele à reportagem. Seu Francisco não sabe como cobrar indenização do Estado ou município. E afirmou: "isso não sai nunca". Ao seu lado o pequeno Rodrigo olhava com compaixão ao pai. Um drama em família.

Outros acidentes ocorreram, pelo menos seis, envolvendo um professore e o de uma mulher, com um filho de 2 anos quando passava de moto pela outra ponte: a do Rio Areia. 

Entre tantas dores e desabafos inclusive de pessoas idosas que mesmo com dificuldades atravessam as pontes abandonadas, a fala do produtor rural Euripedes Bassnuf manda um recado direto para os governantes. Ele gerava em média 8 empregos, mas não tem mais clientes em sua piscicultura (que funcionava também como pesque e pague), pois o cliente não chega e não tem como levar a ração para os peixes:

"Eu faço o apelo que as autoridades (prefeito, vereador, presidente de Câmara, os deputados, nosso governador) que uma região como essa aqui, bonita, produtiva, sadia, tem tudo pra dar certo. Só está precisando deles darem uma olhadinha pra nós aqui. Dar um pulinho aqui e ver o que nós estamos passando. Chegar aqui. Porque na época das campanhas eles conseguem atravessar essa ponte e vem até a nossa casa. Eles vêm pedir o voto. Invadem a nossa casa através da televisão para pedir o voto. E agora é a hora deles dar uma olhadinha, mandarem um secretário aqui e resolver o problema" - detalhou na reportagem, completanpdo: A ponte do Cainana já está complentando um ano - "um aniversáiro, a contar da colheita da cana no ano passado" - e agora os produtores de cana precisam tirar a cana, vender, pagar suas contas, financiamentos e eles não tem como passar ali. Não tem como tirar a cana. Tem um ano e nossos governantes ainda não enxergaram".

E, para reflexão, conclui: "Mas eu acredito que as eleições não vão demorar muito e então, com essa fé de que nas eleições vem alguém aqui para nos acudir, na época do voto" - profetiza Euripedes.

Porém com visão ampla ele adverte que "isso prejudica não só nós, como prejudica também o Estado. Eu mesmo cansei de tirar nota de peixe na Sefaz (vendendo peixe), o que agrega mão de obra, emprego - eu sempre tive aqui 6 a 8 pessoas trabalhando - e agora está parado. A gente perde a vontade de trabalhar. Eu mesmo deixei de tirar leite, abandonei a tiração de leite, pois não tinha condição [do caminhão] de pegar o leite aqui. Tem tanque que eu to deixando de por alevinos, pois eu não sei mais quando vai vir o nosso socorro. Está bem antigo esse problema. Está bem antigo" - finalizou com ar de indignação.

A situação das famílias de Juscimeira é um retrato irracional de um Brasil onde a burocracia causa mortes, sequelas e dizima famílias, pois impõe ao homem do campo a fragilização, a perda da produção e consequentemente a queda em sua renda e, pior, a queda do despejo de dinheiro nos cofres públicos. Estes, que como monstros devoradores querem a cada dia mais estrutura, mais carro, mais salas confortáveis, mais gente, ou melhor: emprego, emprego, emprego, emprego... público! 

Alberto Romeu Pereira é jornalista em Mato Grosso. E-mail romeu@plantaonews.com.br
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